Pr. José Carlos Torres
Meus queridos irmãos:
Nas duas primeiras reflexões desta pequena série definimos logo no início que o nosso propósito, ao desenvolvê-la, é o de enfocar alguns assuntos de fundamental importância para a formação de cada um de nós, como servos de Cristo, e contribuir para avivar a relevância e a atualidade da pregação cristã. Para tanto, nos propusemos a abordar dois grandes males que prejudicam a comunicação da mensagem do evangelho e, como consequência, a vida da igreja e, assim, dos cristãos deste nosso tempo: a defasagem e a imprecisão linguísticas, e a indefinição conceitual.
Consideramos já, nas reflexões anteriores, dois exemplos referentes à defasagem e imprecisão linguísticas. Hoje, na próxima e penúltima reflexões desta pequena série, vamos considerar dois exemplos referentes à indefinição conceitual que deixa os crentes perdidos diante dos desafios cristãos que, de forma imprecisa, lhe são apresentados, .
O primeiro exemplo a considerar é o do desafio de desenvolvimento espiritual que é posto diante de cada crente. O problema, aqui, não está na apresentação deste desafio, mas na falta de definição do que ele seja. Afinal, onde encontramos uma definição do seja espiritual e, mais ainda, do que seja cristãmente espiritual?
O fato real, meus irmãos e amigos, é que, também de forma incompreensível e que agride a inteligência, as lideranças, os pensadores e os mestres cristãos se têm recusado a conceituar espiritualidade cristã ou, o que é pior, não têm chegado à percepção da importância de que isso seja feito, e logo.
Dizemos a todos os crentes que sejam espirituais e que cresçam espiritualmente, mas não lhes dizemos o que isso significa, não lhes apresentamos um conjunto de conceitos básicos que os orientem em sua caminhada nesta direção. Não surpreende o fato de que, inicialmente confusos diante do que fazer, depois desanimados por não perceberem nada de especial em suas vidas, muitos crentes depois disso assumam uma postura (mesmo inconsciente) do tipo “deixa isso prá lá”, e assim continuem vivendo.
Existe uma espiritualidade, uma proposta de vida espiritual, própria do cristianismo? Para nós é claro que sim, e os conceitos e contornos básicos que a definem e compõem estão assentados nos ensinos de Jesus, expostos nos evangelhos e depois refletidos nos demais escritos neotestamentários. A espiritualidade (não a religião) proposta e ensinada por Jesus foi e é a maior e mais rica novidade que revolucionou a história da humanidade e que, redescoberta e fielmente atualizada, pode ser, de novo, o caminho das revolucionárias mudanças espirituais e, por consequência, humanas e sociais de que estamos precisando hoje em todo o mundo.
Será a espiritualidade cristã igual à espiritualidade kardecista, à budista, à muçulmana? E dentro do cristianismo, será a espiritualidade cristã batista igual à católica, à anglicana, à luterana, à metodista, à presbiteriana, à pentecostal e à neopentecostal? Não teria cada uma delas nuances e aspectos próprios que as distinguiriam umas das outras e, como tal, ajudariam a definir mais claramente a sua identidade e a identidade dos seus fiéis?
Diante da crise que estamos vivendo nos segmentos religiosos, quando tanto se fala da perda da unidade e da identidade, bem como do mergulho no sincretismo e no uso de estratégias de marketing de mercado (ao menos na prática, uma vez que as doutrinas nem mais são consideradas), com toda certeza esta imprecisão de conceito sobre o que seja a espiritualidade própria do grupo, a ser compreendida, vivida e praticada é o mais forte dos seus componentes. Afinal, um grupo social, de qualquer natureza, somente desenvolve sua unidade quando claramente compreende e percebe o que o identifica e quais são os seus propósitos. A falta disso gerou o quadro sincrético (de salada de conceitos, ou falta deles, e de práticas exóticas, heréticas e absurdas) que contemplamos hoje.
Aí está uma razão extremamente forte para que as lideranças cristãs de qualquer segmento do cristianismo, hoje atuando no limite da irresponsabilidade no que concerne à indefinição conceitual, assumam seu papel formador, pedagógico, e trabalhem com o devido senso de prioridade e urgência, junto com o povo a que serve, na formulação ou na redescoberta e atualização da espiritualidade do seu grupo.
Quanto a mim, cristão batista que sou e retomando apontamentos trabalhados com uma classe especial sobre este assunto que ministrei a irmãos da Igreja Batista Memorial da Tijuca, proponho-me, desde hoje, a dialogar com quem o deseje para a construção de definições fundamentais sobre o que seja a espiritualidade cristã batista. E você é meu convidado!
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