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    Igrejas em favelas

    Uma discussão sobre a realidade das igrejas em comunidades carentes reuniu, no último sábado, no Seminário Teológio Betel, pastores e líderes da Associação Sinai. O encontro, há muito aguardado pelos batistas da região, foi uma oportunidade para rever conceitos e falar sobre os paradigmas que dificultam o trabalho das igrejas em áreas de favela.

    Como palestrantes, foram convidados o pastor Neander Kraul, reitor do Seminário Betel e membro da Comunidade Batista Vida, e o missionário Jovino Neto (Jocum). Pastor Neander, além do conhecimento teológico, viveu grandes experiências como pastor de uma igreja na Vila do João, favela da Zona Norte do Rio de Janeiro. Durante sua participação, falou sobre as características de uma igreja de comunidade e a necessidade de remodelar formas de atuação a partir de uma visão missional.

    “A gente tem que conviver em comunidade com projetos circunstanciados pelas demandas”

    Assim como em muitas favelas, uma das carências encontradas na Vila do João foi o déficit educacional dos moradores. Para Neander, a igreja deve aproveitar essas lacunas para garantir relevância e gerar transformação.

    “Tinha a consciência de que nossa igreja era de trânsito. Ela estimulava o fator educacional permanente e implantamos dois pontos no Rio de Janeiro com Ensino Médio de jovens e adultos. Então não havia nenhuma desculpa de um membro da igreja não chegar ao término do segundo grau. A comunidade inteira participava da igreja e muitos desses conseguiam melhores empregos e iam embora. Tínhamos que conviver com a alegria de perder o membro da igreja”, comenta o pastor.

    Falando sobre o período em que sua igreja também contribuiu com o acolhimento de refugiados angolanos, ele mostrou que a favela possui dinâmica própria. Frente a isso, é preciso coragem para mudar estruturas. “Nós descobrimos que havia em nossa comunidade um grande número de angolanos, naquele período da guerra civil de Angola. Começamos uma igreja evangélica angolana que funcionava aos sábados. Então a gente tem que ir assumindo formas específicas dentro das demandas locais. Os angolanos foram embora, mas a igreja funcionou por sete anos. Nossa oração de todo o sábado era que encerrasse a guerra em Angola… Então a gente tem que conviver em comunidade com projetos circunstanciados pelas demandas e temos que ter criatividade para descobrir respostas para novas demandas”.

    Como você lida com a seguinte questão: você constrói uma casa para a pessoa e depois ela não se converte e ainda vende a casa que você doou?

    Para Neto, que é o líder da Jocum Borel, a resposta ao questionamento acima é simples: “Não barganhamos o evangelho”. O missionário defendeu a ideia de que os projetos não podem ser idealizados como iscas, mas sim como expressão do amor de Cristo. “Jesus não veio para ser servido, mas para servir. A igreja deve ser vanguarda e precisamos da visão integral do evangelho”.

    Neto também explicou que não existe dualidade entre proclamação e encarnação. Para ele, a grande questão está em saber quando enfatizar cada um desses pensamentos. “Entendemos que, quando a pessoa precisa de uma casa, esse [também] é o inferno que a igreja precisa aliviar, essa miséria que as estruturas sociais trouxeram a essa pessoa. A igreja pode, sim, aliviar a dor do dia a dia. Servimos à comunidade e proclamamos, mas a conversão é por conta do Espírito Santo”.

    “Creio que os pastores não são preparados para essa realidade”

    Sentindo na pele as dificuldades de propagar o evangelho nas favelas, o Pr. Alex Romano, da IB Jardim Arimateia, no Morro Mangueira, foi um dos líderes que levantaram a questão da falta de apoio de coirmãs e a falta de líderes preparados para a realidade dessas comunidades. “Apoio missionário não é a realidade da maioria das igrejas. Se a gente está promovendo uma mudança e tem essa proposta, como se trabalha a questão de ter a igreja o tempo todo aberta [para a comunidade]?”.

    Na sequência, Romano ainda citou a falta de disciplinas em seminários e cursos que apontem para a realidade do evangelho em áreas de vulnerabilidade e a forma como isso afeta a liderança. “Creio que os pastores não são preparados para essa realidade. Os seminários e cursos não se atentam para as realidades locais. Hoje a gente tem uma geração que não sabe lidar com a comunidade. A igreja continua pregando, fazendo cultos e as pessoas têm dificuldade de levar a igreja a um outro patamar. Estamos presos em nossas agendas.”

    Esse foi o primeiro passo da Associação Sinai em direção ao clamor das igrejas batistas em contexto de favela. Estão sendo agendadas reuniões mensais para a troca de experiências e desenvolvimento de projetos de cooperação.