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  • O justiceiro e o pacificador

    O justiceiro e o pacificador

    Por Mateus Lopes*

    Pensei em uma frase dita pelo talentoso professor Henrique Araújo. Quando pregava numa igreja para jovens, em um congresso, ele dizia:

    – Não tratem as pessoas como elas merecem. Trate-as como elas precisam ser tratadas. Se ela te “fechou” no trânsito, não revide “fechando” ela. Se alguém te maltratou, não maltrate este alguém. Lembre-se de que as pessoas que ainda nos tratam conforme não merecíamos ser tratados, precisam de algo muito maior, a saber: Graça de Jesus.

    Esta frase, de imediato, me insuflou a ler certa vez um artigo mitológico que trata de um herói chamado Xing Tian, cuja fama andava de boca em boca entre todas as populações. Empunhando um machado na mão esquerda e um escudo na mão direita, ele corria por todo o mundo atacando os poderosos na defesa dos fracos e necessitados. Era um homem corajoso e justiceiro, vindo gradualmente a ganhar o respeito e o apoio de todos os habitantes.

    O universo era, então, controlado por um gênio celestial egoísta e preguiçoso que levava uma vida de prazeres incontroláveis, sem se preocupar minimamente com a vida do povo. Acontecia que, frequentes vezes, ele não mandava chover durante meses seguidos e as árvores e plantas murchavam de secas; outras vezes, resolvia mandar chover a cântaros, meses sem fim, provocando enchentes que submergiam e arrastavam árvores e casas. A vida da população de então era uma miséria e ninguém tinha quaisquer garantias de um previsível futuro.

    Um dia, muito indignado com o que estava acontecendo, Xing Tian foi ter com o gênio e disse-lhe:

    – Tu realmente és um gênio malfazejo! O povo sofre muito sob o teu domínio. Se não queres fazer por bem, por que não dás o teu lugar a quem de vontade?

    O cruel gênio que, claro, não tinha quaisquer intensões de renunciar ao seu domínio, dando-lhe um riso amarelo respondeu-lhe:

    – Faço aquilo que me aprouver. O melhor é não te meteres nos negócios alheios, caso contrário, faço você saber quem sou eu!

    A arbitrariedade e a arrogância do gênio provocaram a cólera do herói justiceiro que reagiu instantaneamente, brandindo o seu machado, querendo-lhe cortar a cabeça. Vendo isto, o gênio celestial ficou apavorado e fugiu apressadamente rumo a oeste. Contudo, o herói precipitou-se ao seu alcance, perseguindo-o de perto até que, ao chegarem ao sopé das montanhas de Kunlun, Xing Tian morreu de cansaço.

    À luz desta história mitológica, fica bem compreensível entender que há uma distinção entre promover a paz e fazer justiça. O que vemos por aí, nos dias de hoje mesmo e não nos dias de ontem, são tragédias acontecendo que poderiam muito bem serem evitadas. O mais cômico deste episódio atual é que até observando pelo lado da perspectiva bíblica, cristãos estão se preocupando em serem mais justiceiros do que pacificadores.

    Discutimos por causa governo atual, xinga-se e destrói-se moralmente a figura do árbitro que prejudicou simplesmente seu time no jogo, discutimos por muitas causas. De tanto destas coisas que defendemos, queremos ser justiceiros em vez de agirmos oferecendo a outra face, pacificando as tensões social, econômica, racial e de gênero em altas por aí.

    Deveríamos nos unir juntos pela paz. A paz de Deus que excede todo entendimento necessita estar dentro de nós para que nosso diálogo seja ele teórico ou prático, contra ou a favor, nos leve a uma reação pacífica para que desta forma possamos evitar muitos dissabores, minimizar muitas guerras, e encerrar com os debates que não nos levam a lugar nenhum, somente à beira de um ataque de nervos.

    A pacificação é algo que é visto em nossa vida como um todo. Nossos vocábulos não podem mais continuar os mesmos, portanto, tire de sua boca palavras como: matar, ferir, prejudicar e etc. Também nossos comportamentos não podem ser os mesmos, tire de você atitudes como: revidar, tirar satisfação, olho por olho ou dente por dente, pois se levamos a sério nosso compromisso com a bendita Palavra de Deus, devemos mais do que nunca obedecer o conselho de Jesus ao pé da letra: “Eu porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, vota-lhe também a outra”. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

    Tudo pode muito bem ser evitado, portanto somos convidados a confrontar todos os problemas não pela nossa perspectiva de justiça, mas pela perspectiva divina. Xing Tian morreu de cansaço de tanto perseguir com razão o gênio celestial. Talvez estamos perseguindo de igual maneira nossos “gênios celestiais”, atuais em busca da ordem e da justiça, e talvez temos os melhores argumentos, razões e soluções, porém podemos correr o risco de morrer de cansaço, ao ver que nosso esforço não valeu a pena e não nos levou a nenhum lugar. Podemos fazer a diferença, podemos vencer, se humildemente seguirmos os conselhos de Jesus. Não seja justiceiro, seja um pacificador e mantenha esta atitude diante de todos.

    *Mateus representa a geração de jovens batistas engajados na obra missionária e temas sociais. O artigo acima foi um dos escolhidos em concurso literário organizado pela Uol, cujo tema foi “Por uma cultura a favor da paz”.

     

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