Retorna amanhã a caravana que levou voluntários cariocas ao município de Barra Longa para ações humanitárias em prol de famílias desabrigadas. Foram seis dias intensos, de muito trabalho, em meio à lama que invadiu casas e estabelecimento comerciais daquela cidade mineira localizada a 60Km de Mariana. Na bagagem, eles trazem experiências que ficarão eternizadas na memória.
Fernando Tavares, coordenador carioca dos Embaixadores do Rei, escreveu para o site Batistacarioca.com.br na tentativa de ilustrar um pouco o cenário de tristeza e também o renascimento da esperança por meio da força solidária.
Soube do movimento de ida a Minas Gerais, para ajudar aquele povo, no domingo à noite. Ao chegar àquela cidade, percebi que algo terrível havia acontecido ali. Parecia uma cidade fantasma. Eu estava com outros dois conselheiros de embaixadores cariocas: Rodrigo e Chiquinho.
Naquela cidade, uma equipe de amarelinhos se destacava em meio aos militares. Eram os batistas! Assim que chegamos, fomos direcionados a uma casa para pegar os nossos equipamentos de segurança e, depois, um carro nos levou às casas que haviam sido invadidas pelas lamas.
Na casa, ao dar o primeiro passo, afundei com lama até os joelhos. Foi difícil me movimentar. Lá dentro, dois amarelinhos lutavam, com suas pás e enxadas, contra um metro de altura de pura lama. Eles pareciam esgotados e nós chegamos para ajudá-los. A lama já estava ficando dura. Naquela altura, pensei que seria impossível tirar tudo aquilo de dentro da casa.
Fui para um quarto e verifiquei que havia lama até a metade da parede. A cama estava soterrada e por muitas vezes, quando puxava a lama, vinha um brinquedo junto. “Eram brinquedos de uma menina”, pensei. Ela perdeu tudo.
Um homem entrou e pediu ajuda para tirar a cama. Estava presa e quebrada. Aconteceu o mesmo com o fogão, geladeira e armários… tudo perdido. Aquele pai de família, desesperado, olhou para mim e disse:
“O que me dá forças são vocês aqui comigo. Não saberia o que fazer se vocês não estivessem aqui comigo”.
Ele abaixou a cabeça e saiu. Precisei engolir o choro várias vezes.
No final do dia, tínhamos limpado duas casas.
No segundo dia, fomos a um vilarejo chamado Gesteira, que ficava a duas horas do local onde estávamos, pegando uma estrada de chão. A missão era ajudar a organizar os mantimentos, distribui-los e fazer um cadastro das casas e pessoas que ainda ficaram – 90% das casas daquele lugar sumiram, sendo totalmente soterradas.
Andamos a pé, entre morros e trilhas, até encontrarmos quatro casas onde pessoas ainda resistiam. Uma família estava morando no curral e o dono dessa casa, paciente diabético, confessou que pensou em se matar.
Ele disse que nunca poderia recuperar sua terra e que nada fazia mais sentido para ele. Nossa palavra naquele dia, nossa ferramenta preciosa, foi falar do amor de cristo, levar palavras de esperança e fé.
Distribuímos bíblias para aquelas pessoas. Uma senhora, esposa do Sr. Paulo, pegou aquela bíblia e a abraçou com tanta força e emoção que ela não pôde conter as lágrimas. Ela falou como foi importante aquela visita. Sentiu-se valorizada.
“Vocês vieram aqui saber de mim! Como estou feliz! Esse presente foi o melhor que poderia receber nesse momento”, disse e chorou.
Oramos, orientamos e fomos embora sabendo que do outro lado do rio existia uma família totalmente isolada. Observava tudo e não podíamos chegar lá para fazer o mesmo, levar água, remédios, enfim… ali o helicóptero passava e jogava mantimentos e água.
Há muito a ser feito naquele lugar. Peço pelo amor de Cristo que mandem outras equipes para aquele lugar, pois este trabalho não pode parar!

