Há conhecimentos que adquirimos e nunca mais esquecemos. Muitas vezes fazemos um esforço sobre-humano para aprendermos ou memorizarmos algo importante quando tantas outras coisas menos relevantes são absorvidas pelo nosso cérebro de forma natural e permanente. Por exemplo, eu nunca esqueci que o irmão da estagiária da minha professora da alfabetização morreu num acidente de moto em Teresópolis, no entanto nunca consigo me lembrar do número de telefone da minha irmã.
Dentre todas as coisas que entraram no meu cérebro sem esforço, está uma aula de patologia sobre processos de restauração tecidual e cicatrização. Tive essa aula no terceiro período da faculdade de medicina e nunca mais me esqueci do que foi dito ali: “Quando um tecido sofre lesão ele sempre será restaurado, seja por regeneração ou cicatrização”. Ao sofrermos uma lesão superficial, passamos pelo processo de regeneração que não deixa marcas no tecido, permitindo que a pele retorne exatamente ao aspecto original. Já uma lesão mais grave, dessas que são profundas e sangram à beça, passa pelo processo de cicatrização. A cicatrização acontece em lesões maiores, mais importantes, exige mais tempo, mais colágeno e deixa uma marca eterna. É raro nos lembrarmos de machucados leves porque não vemos seus resquícios, mas quando temos uma cicatriz, nunca esquecemos o que aconteceu ali e muitas vezes não conseguimos esconder a injúria.
No entanto, quando perfeitamente fechado o ferimento, a cicatriz não dói, não coça, não incomoda e só nos lembramos do acontecido quando olhamos pra ela. Lembramos do que não deu certo e sabemos que não podemos repetir aquele feito. Ficamos mais cuidadosos porque a cicatriz nos lembra da dor que sentimos e o quanto custou até que a ferida secasse. Percebemos que nosso corpo encontrou uma forma de se restaurar, às vezes com ajuda de uns pontos ou curativos. Nossa tendência é fechar feridas, superá-las e voltarmos ao nosso funcionamento normal. Frustrações, decepções, perdas, mágoas, traições, rejeições, lutos e toda a sorte de dramas são capazes de provocar cortes gravíssimos, mas infalivelmente é feita a cicatrização. Sempre somos restaurados, por mais que doa e que demore, fomos feitos fortes e eficientes pra isso, temos essa capacidade, aliás, é mais que capacidade, é inevitável. Não sabemos fazer de outra forma se não ir fechando, regenerando, juntando as bordas, expondo menos o interior até que fica apenas a marca do que passou e cá entre nós, tem cicatrizes que rendem histórias incríveis.
Fomos criados com essa vontade e capacidade de superar e nunca precisamos fazer isso sozinhos. Até podemos, mas coisa boa é saber que Deus faz a limpeza dos nossos machucados, troca nossos curativos e nos coloca inteiros novamente. Ele nos ensina a evitarmos que as feridas inflamem, nos poupa de agentes infecciosos e permite uma nova chance a cada machucado.
Eu não sei qual é a sua ferida nem onde ela foi feita, mas o prognóstico é bom: você vai sobreviver, mesmo com a cicatriz. Você foi criado pra isso e tem o médico dos médicos esperando seu chamado de emergência.
Luisa Moté Novaes
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