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  • Quando uma coisa não cabe num lugar

    Quando uma coisa não cabe num lugar

    Pr.Sergio Dusilek

    2Coríntios 6:14c – “Que comunhão há entre a luz e as trevas?”

    Já faz algum tempo que li uma coluna de Marta Medeiros, do O GLOBO, em que ela comentava um acontecimento que presenciou. Na saída de uma escola, na Zona Sul carioca, uma mulher tentava parar um carro do tamanho de um Santa Fé da Hyundai numa vaga que se coubesse um Picanto da Kia era muito. Lógico que apesar da destreza da motorista, da sua persistência, e de suas renovadas tentativas, ela não conseguiu parar seu carro naquela vaga.

    Esse relato tem muito a ver com a vida de cada um de nós. Por vezes queremos acondicionar coisas incompatíveis num mesmo espaço. Achamos que nossa persistência, nossa habilidade, nossa destreza, e até mesmo as renovadas tentativas em algum momento vão conseguir compactar o que todos sabem que não cabe. Nessa hora manifestamos nossa teimosia, perdemos tempo, energia, e deixamos de ver “outras vagas”, outras oportunidades que estão ali, bem perto de nós. Mas em nossa cabeça pensamos é melhor uma pequenina vaga do que nenhum espaço… será?

    Há coisas que são incompatíveis. Você sabe que não dá, no fundo do coração você já foi convencida de que o motivo de sua insistência será também a causa do seu fracasso. No entanto, mesmo lá dentro sabendo, você insiste. Talvez por medo de não “achar outra vaga”; talvez por domínio, por relação de poder, para dizer que tem algo que lhe pertence, ainda que esse algo honestamente não lhe sirva; talvez por consideração ou mesmo apego ao que tem de ser perdido… Entenda algo de uma vez por todas: o tempo não traz compatibilidade; ele petrifica aquilo que é incompatível, o que implica num prolongamento desse incômodo. Em outras palavras: ou você adia o fim, ou ele virá sobre “essa vaga de estacionamento”, ou mesmo sobre você, tornando-a uma pessoa irreconhecível.

    De certo modo é isso que Paulo está dizendo no texto acima. Sem me alongar, quero somente dizer que Paulo não condenava a amizade de crente com não crente. Ele condenava a associação para o mal. Na sua época o CDL (“clube de diretores lojistas”) de Corinto exercia forte e maléfica influência sobre os comerciantes. Era quase uma “milícia”. Quem não rezava a cartilha podia perder o negócio. E essa reza passava por celebrações ao Diabo e por prostituição. Com gente com vida assim, dá para ter contato, mas não dá para “ter tudo em comum” (= koinonia – comunhão). De fato jamais haverá plena identificação entre luz e trevas. Ambas estão figuradas no “Feitiço de Áquila” (lembra do filme?): quando uma aparece a outra some. De fato, plena comunhão jamais haverá. Se tem algo que puxa você para longe de Deus, em algum momento você terá que escolher o que vai querer: Deus ou essa coisa/situação/pessoa. Nesse sentido o Feitiço de Áquila se torna um exemplo também que essas partes podem se tocar, por um instante, mas não há como permanecerem juntas.

    Se tem algo que não cabe, não insista. Aconselho a você a orar e a buscar em Deus força para desapegar. Insistir só vai ferir você ainda mais, visto que a nossa teimosia não tem o poder de mudar a realidade.

    Extraído do blog pessoal sergiodusilek.worpress.com

    Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente a opinião do site.

  • Inamaldiçoáveis

    Inamaldiçoáveis

    Pr. Sérgio Dusilek

    Uma erva daninha cresce no meio dos evangélicos, mas que nada tem do Evangelho. Trata-se do praguejamento, do amaldiçoar o outro. Num tempo de crescente violência na espiritualidade, como bem asseverou o Pr.Grellert, é de se esperar que tais coisas aconteçam. Vai do crente comum (terminologia horrível essa, confesso), aos líderes de grupos, de departamentos, de ministérios, de células, passando por pastores, bispos e preferencialmente os “apóstolos” contemporâneos.

    Na origem desse recrudescimento estão alguns fatores. Primeiro a própria aproximação dos chamados evangélicos com o judaísmo e com a territorialidade nele existente. Tudo se torna conquista, avanço. Escoram-se em alguns Salmos (ex.137:9), mas não no Espírito dos Salmos. Por isso suas palavras mortificam ao invés de vivificar. Na verdade quase tudo nesse tipo de pensamento é preocupante: porque o movimento é para fora, numa sacralização do mundo, e não para dentro. Dessa maneira, cada vez mais bandeiras (símbolo da territorialidade) são erguidas, menos transformação acontece. A coisa é tão gritante que se antes tínhamos gente que não conhecia a profundidade do evangelho pois não o conseguia viver, hoje nem o conteúdo, a teoria, conhecem. Daí amaldiçoar os outros, sejam em palavras, seja em atitudes. Sim, porque nem toda maldição é escancarada; há o tipo que a propaga na sutileza como achar que algo só dá certo porque determinado líder está “por detrás” daquele grupo… uma espécie de maldição com 50 tons do mais puro narcisismo. Há aquelas que escoradas em interpretações mal intencionadas do texto bíblico, como as que afirmam que o joio são as pessoas que deixam “aquela” comunidade local… A questão não é se “pega ou não pega”, mas sim que é desgastante passar por isso.

    Um segundo fator é a composição da espiritualidade do brasileiro, povo miscigenado não só nas raças, mas também nas tradições religiosas. Para esse povo que somos nós é normal aceitar que numa religião possa se invocar o mal e o bem, o “trabalho” para ajudar e o para prejudicar. Faz parte do nosso ethos cultural-religioso. Em assim sendo, as pessoas convertem a Jesus, e ao invés de serem convidadas a aprofundarem sua experiência com Deus, são mantidas na superficialidade. Talvez porque a superficialidade produza consciências fragilizadas, impressionadas e manipuladas, ao passo que a profundidade gera avaliação, crítica. Uma vez sendo rasos na fé, misturam as estações das tradições religiosas que compõem o Areópago (At.17) brasileiro, e permanecem desconhecendo que Cristo na Cruz do Calvário se fez maldição por todos nós, de uma vez por todas (Gl.3:13-14). E mais: não são instruídas que no Evangelho somos chamados a bendizer e não a maldizer.

    O terceiro fator é a falta de amor. Suspeito que o crescimento de igrejas e denominações esteja mais ligado ao sentimento de dominação do que ao amor. Não é “paixão” pelos perdidos… é a perdição dos apaixonados mesmo. A feição empresarial de muitas igrejas faz com que se veja o mundo ao redor como concorrente, num “mercado” competitivo. Definitivamente competição e concorrência não são vocativos da conciliação, mas sim da disputa e da dissensão. Ora onde há amor há benfazejo. E em comunidades de fé que vivem o amor a tônica é o compartilhar e não o binômio ter/reter. Mas na construção de um sistema político-religioso (que na minha avaliação é muito mais perverso que o político-partidário) o que se estabelece não são os laços da ternura, da compaixão, do amor; e sim os traços de seita. Por isso que quando um sai desse sistema (lembra do divergente?) ele é amaldiçoado ou visto como alguém que caminha para a maldição ou ainda para um lugar maldito, ainda que esse lugar (por exemplo) seja uma outra comunidade da mesma fé e ordem. Esse pensamento é o de qualquer seita no mundo. O que essa ideia faz no meio da Igreja de Deus?

    Por fim destaco que você sendo de Jesus, é parte do povo de Deus, o que o (a) torna inamaldiçoável (Nm.22:12, 23:8, 24:9). Aliás, o amaldiçoar é qualidade do injusto e não do justo (Rm.3:9-18). Cristo pagou um alto preço por cada um de nós (I Cor.6:17,22), para que nEle recebêssemos toda sorte de bênçãos espirituais (Ef.1:3)! Você é abençoado por Deus pois a maior benção do céu repousa no seu coração. Não se deixe aprisionar por essas “sutilezas”.

    Extraído do blog pessoal sergiodusilek.worpress.com

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  • Igreja e Voluntariado

    Igreja e Voluntariado

    Pr. Sérgio Dusilek

    Num tempo de crescente profissionalização, muitos líderes se ressentem de não poderem contar com os voluntários que, ao que tudo indica, antes existiam nas igrejas. Penso que essa dificuldade hodierna se dá por alguns fatores, os quais passo a enumerá-los numa lista não esgotável em si mesma:

    a) além da profissionalização, o perfil de parte das igrejas batistas (para ficar num exemplo) mudou. Sua membresia ascendeu socialmente, muito talvez fruto do próprio evangelho que fez casais priorizarem a formação de seus filhos ao invés de gastar os parcos recursos em outras coisas (bar, mulher, jogo, etc). Esse perfil de membresia acostumou-se a pagar, até mesmo porque pode, pelos serviços. E tal visão foi transferida para a Igreja;

    b) a ausência de abordagem nos púlpitos de ensino sobre dons espirituais e sobre o valor do serviço no Reino, o que normalmente vem acompanhado de falta de sincera busca do Senhor;

    c) a importação de modelos americanos de gestão eclesiástica, país no qual a cultura de se pagar para se ter as coisas é uma realidade. É interessante que líderes importam o modelo até mesmo nas suas expressões vestuais e não querem “pagar a conta” pelo modelo escolhido… ora, o pacote da parafernália eclesiástica, ainda mais de um país que preza pelos modelos organizacionais é completo;

    d) a ausência de inspiração dos líderes, em especial de pastores. Há alguns que servem ao Senhor sem alegria, e sem ela não há contágio voluntário. Você pode ser até sisudo, mas exale prazer, alegria no ministério que exerce;

    e) a inabilidade de líderes que “surram” suas ovelhas quando elas estão em pleno serviço a Deus. Só para ilustrar ouvi certa vez de um pastor que desfez das senhoras da igreja reunidas como MCA. Ora, você pode até não gostar desse tipo de reunião, mas desfazer da mesma? Depois as pessoas não querem mais ajudar e o líder ainda pergunta como conseguir que elas se envolvam…

    f) a importação do modelo IURDiano de sucesso pastoral, baseado nos números, tanto de membros como de receita, e na ostentação dos benefícios pastorais. Ora, quando um membro de igreja percebe que seu pastor não está tendo um sustento digno ou mesmo qualificado no âmbito do merecimento, mas sim que ele está usando o ministério para “se dar bem”, é inevitável que alguns se sintam como que “usados” no voluntariado. Tal sentimento de abuso moral/espiritual tem feito com que grandes valores voltem para dentro da terra, ao invés de serem multiplicados sobre ela (parábola dos talentos);

    g) a falta de exemplo dos líderes. Há líderes que mentem, e ao fazerem isso perdem uma das molas propulsoras da voluntariedade que é o respeito e a fidedignidade daquilo que fazem. Veja só essa expressão que Dostoievski escreveu nos Irmãos Karamazov: “Aquele que mente a si mesmo e escuta sua própria mentira chega ao ponto de não mais distinguir a verdade, nem em si, nem em torno de si; perde, portanto, o respeito de si e dos outros.”

    Seria bom se houvesse uma nova efervescência do mais puro significado de Col.3:23; Hebreus 6:10; I Cor.15:57-58 entre tantos outros textos da Bíblia que apontam para o voluntariado.

    Que Deus nos abençoe!

    Extraído do blog pessoal sergiodusilek.worpress.com

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