Pastor José Carlos Torres
Na primeira das cinco breves reflexões que comporão esta série, dissemos que nosso propósito é o de conversar com vocês sobre alguns assuntos de fundamental importância para a formação de cada um de nós, como servos de Cristo, e para avivar a relevância e a atualidade da pregação cristã.
Comecei dizendo que iria destacar dois grandes males que muito prejudicam a vida da igreja e, assim, dos cristãos deste nosso tempo: a defasagem e a imprecisão linguísticas, e a indefinição conceitual.
O primeiro exemplo de defasagem e imprecisão linguísticas considerado foi o da ênfase ainda dada na pregação cristã à mudança de coração que o crente deve experimentar, como se mudando o coração de uma pessoa, transformada fosse também a sua vida.
O segundo exemplo está no inapropriado, equivocado e prejudicial uso da imagem do templo como identificador da igreja.
É inexplicável, considerando o ensino sobre a igreja no Novo Testamento, que continuemos chamando as pessoas para irem à igreja, continuemos estacionando carros na igreja e tendo reuniões na igreja. Tudo isso, sacramentado pelas pregações que são proferidas dos nossos púlpitos, no que elas apenas ratificam conceitos nada bíblicos e próprios, no nosso caso, do sistema conceitual da cultura brasileira.
Mas a Bíblia é tão clara! Igreja é um milagre da graça e da ação do Espírito Santo que faz nascer os filhos de Deus, e eles, sim, é que são igreja de Cristo, povo de Deus, corpo de Cristo. Eles, sim, formavam as igrejas que se reuniam nas casas dos crentes, como é mostrado nos Atos dos Apóstolos e nos demais livros do Novo Testamento. Em nenhum momento, nesses textos bíblicos, é dito que os crentes se reuniam na ou nas igrejas.
O resultado, neste caso é a impossibilidade de se trabalhar e se firmar na consciência dos crentes em Cristo o verdadeiro conceito cristão de igreja. Pastores e demais cristãos que repetem este conceito de templo como igreja são os mesmos que geram “igrejas templocêntricas”, com todas as suas distorções, e nem se dão conta disso. Soma-se a isso, a falta de consciência que marca a maior parte deles, de que eles mesmos é que são a igreja e o povo de Deus no mundo, com uma missão, como nos fala Pedro, em sua segunda carta, capítulo 2, versos 9 e 10:
“Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo de propriedade exclusiva de Deus, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia.”
No caso da formação de “igrejas templocêntricas”, acima referido, realçamos apenas quatro males que lhe são consequentes:
– O templo é o centro de tudo na vida dessas igrejas. Como consequência tudo de significativo na vida delas acontece apenas dentro do templo. Fora dela, nada de relevante ocorre.
– O templo e não o mundo é, também, o espaço onde se vive a missão. Por isso, o conceito distorcido de “missionário” aplicado apenas aos que vão para lugares distantes e específicos pregar o evangelho. Os outros, “os que não vão”, os que ficam, são, forçosamente, mesmo que não de forma declarada, os “demissionários”, os demitidos da missão.
– Se a vida da igreja acontece e quase se esgota totalmente no templo, pode-se abandonar a educação cristã, a formação consciente de discípulos de cristo que sejam cristãos e não apenas se comportem como se fossem.
– No templo, como espaço por excelência de atuação da igreja, a ética se torna desnecessária. Basta comporta-se segundo a forma culturalmente aceita como o comportamento adequado a um cristão.
Para concluir esta reflexão, pergunto: Como podem ser igreja, e se identificar como igreja de Jesus Cristo, crentes que não têm consciência de que eles mesmos são igreja, e que, ainda por cima, estão cercados por um conjunto de conceitos equivocados repetidos a eles de forma exaustiva?
Este e o que foi enfocado na reflexão anterior são apenas dois exemplos de conceitos e pensamentos equivocados que dominam aquilo que podemos chamar de o nosso “inconsciente coletivo”, prejudicando enormemente e na fonte a nossa caminhada rumo ao ser cristão e ser igreja conforme os padrões neotestamentários. Estes exemplos foram aqui tratados muito perifericamente, mas merecem ser bem aprofundados com urgência e tratados com a devida seriedade pelas diversas lideranças cristãs verdadeiramente responsáveis.
Continua…
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