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  • Para falar do Evangelho e vivê-lo hoje (2/5)

    Para falar do Evangelho e vivê-lo hoje (2/5)

    Pastor José Carlos Torres

    Na primeira das cinco breves reflexões que comporão esta série, dissemos que nosso propósito é o de conversar com vocês sobre alguns assuntos de fundamental importância para a formação de cada um de nós, como servos de Cristo, e para avivar a relevância e a atualidade da pregação cristã.

    Comecei dizendo que iria destacar dois grandes males que muito prejudicam a vida da igreja e, assim, dos cristãos deste nosso tempo: a defasagem e a imprecisão linguísticas, e a indefinição conceitual.

    O primeiro exemplo de defasagem e imprecisão linguísticas considerado foi o da ênfase ainda dada na pregação cristã à mudança de coração que o crente deve experimentar, como se mudando o coração de uma pessoa, transformada fosse também a sua vida.

    O segundo exemplo está no inapropriado, equivocado e prejudicial uso da imagem do templo como identificador da igreja.

    É inexplicável, considerando o ensino sobre a igreja no Novo Testamento, que continuemos chamando as pessoas para irem à igreja, continuemos estacionando carros na igreja e tendo reuniões na igreja. Tudo isso, sacramentado pelas pregações que são proferidas dos nossos púlpitos, no que elas apenas ratificam conceitos nada bíblicos e próprios, no nosso caso, do sistema conceitual da cultura brasileira.

    Mas a Bíblia é tão clara! Igreja é um milagre da graça e da ação do Espírito Santo que faz nascer os filhos de Deus, e eles, sim, é que são igreja de Cristo, povo de Deus, corpo de Cristo. Eles, sim, formavam as igrejas que se reuniam nas casas dos crentes, como é mostrado nos Atos dos Apóstolos e nos demais livros do Novo Testamento. Em nenhum momento, nesses textos bíblicos, é dito que os crentes se reuniam na ou nas igrejas.

    O resultado, neste caso é a impossibilidade de se trabalhar e se firmar na consciência dos crentes em Cristo o verdadeiro conceito cristão de igreja. Pastores e demais cristãos que repetem este conceito de templo como igreja são os mesmos que geram “igrejas templocêntricas”, com todas as suas distorções, e nem se dão conta disso. Soma-se a isso, a falta de consciência que marca a maior parte deles, de que eles mesmos é que são a igreja e o povo de Deus no mundo, com uma missão, como nos fala Pedro, em sua segunda carta, capítulo 2, versos 9 e 10:

    “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo de propriedade exclusiva de Deus, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia.”

    No caso da formação de “igrejas templocêntricas”, acima referido, realçamos apenas quatro males que lhe são consequentes:

    – O templo é o centro de tudo na vida dessas igrejas. Como consequência tudo de significativo na vida delas acontece apenas dentro do templo. Fora dela, nada de relevante ocorre.
    – O templo e não o mundo é, também, o espaço onde se vive a missão. Por isso, o conceito distorcido de “missionário” aplicado apenas aos que vão para lugares distantes e específicos pregar o evangelho. Os outros, “os que não vão”, os que ficam, são, forçosamente, mesmo que não de forma declarada, os “demissionários”, os demitidos da missão.
    – Se a vida da igreja acontece e quase se esgota totalmente no templo, pode-se abandonar a educação cristã, a formação consciente de discípulos de cristo que sejam cristãos e não apenas se comportem como se fossem.
    – No templo, como espaço por excelência de atuação da igreja, a ética se torna desnecessária. Basta comporta-se segundo a forma culturalmente aceita como o comportamento adequado a um cristão.

    Para concluir esta reflexão, pergunto: Como podem ser igreja, e se identificar como igreja de Jesus Cristo, crentes que não têm consciência de que eles mesmos são igreja, e que, ainda por cima, estão cercados por um conjunto de conceitos equivocados repetidos a eles de forma exaustiva?

    Este e o que foi enfocado na reflexão anterior são apenas dois exemplos de conceitos e pensamentos equivocados que dominam aquilo que podemos chamar de o nosso “inconsciente coletivo”, prejudicando enormemente e na fonte a nossa caminhada rumo ao ser cristão e ser igreja conforme os padrões neotestamentários. Estes exemplos foram aqui tratados muito perifericamente, mas merecem ser bem aprofundados com urgência e tratados com a devida seriedade pelas diversas lideranças cristãs verdadeiramente responsáveis.

    Continua…

    Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente a opinião do site.

  • Para falar do Evangelho e vivê-lo hoje – parte 1

    Para falar do Evangelho e vivê-lo hoje – parte 1

    Pastor José Carlos Torres

    Hoje e em mais quatro breves reflexões vou conversar com vocês sobre alguns assuntos que avalio como de fundamental importância para a formação de cada um de nós, como servos de Cristo, e para contribuir na restauração da relevância da pregação cristã. Nesta primeira reflexão, tomo como referência o texto de Paulo, no capítulo 12 da carta aos Romanos, versos 1 e 2:
    “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que possais experimentar qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.”

    Começo destacando dois grandes males que muito prejudicam a vida da igreja e, assim, dos cristãos deste nosso tempo: a defasagem e a imprecisão linguísticas, e a indefinição conceitual.
    Para enfrentar a realidade da defasagem e da imprecisão linguísticas que geram a obsolescência do discurso cristão hoje e dificultam sua compreensão, não basta tentar traduzir a Bíblia para a linguagem de hoje. É necessário, também, livrar-nos da pesada carga cultural de conceitos que não servem à boa comunicação do evangelho e, até mesmo, se constituem em duros empecilhos para o entendimento de algumas verdades bíblicas muitíssimo importantes para a compreensão dos ensinos de Jesus e a consequente prática dos mesmos. Vejamos dois exemplos disso.

    O primeiro, estampado na ênfase que ainda se faz na mudança de coração que o crente deve experimentar, sem qualquer consideração à compreensão da fisiologia humana que hoje temos e das funções que coração e cérebro desempenham em nossos corpos e em toda a nossa vida. Hoje, sabe-se sobejamente que coração não pensa, não sente, não é sede de atitudes, não tem vontade, não é sede da memória e não pensa. Se assim é, como mudar o coração, de tal maneira que uma vida seja transformada?

    Vidas não são transformadas mudando corações, mas mudando mentes (isso é coisa que se dá no nosso cérebro), isto é, pensamentos, atitudes e comportamentos, e estes, não por mimetismo ou por imitação, mas pela expressão do que verdadeiramente se é como pessoa.

    Só há uma forma de mudar o coração de uma pessoa, e esta acontece através de um transplante, resultante de uma cirurgia, e isso não leva a mudar a sua vida. O transplantado continua a ser a pessoa que era antes, sem maiores transformações que os benefícios e limitações que alcançam a todos os que passam por este tipo de cirurgia.

    Hoje, sabe-se que as grandes mudanças que ocorrem na vida de qualquer ser humano, em qualquer lugar do mundo, dão-se através da mudança da sua mente e dos pensamentos centrais e seminais que a ela dão forma. Foi esta compreensão que levou o apóstolo a dizer, em Romanos 12:2, aqui numa tradução livre: “Busquem todos vocês a transformação das suas mentes, para que vocês possam discernir e experimentar vivencialmente toda a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”.

    Em tese, o apóstolo propõe que permitamos que o Espírito Santo (e aí está o que somente o Espírito pode fazer) vá formando em nós uma nova mentalidade, “a mente de Cristo”, como Paulo a chama, e extirpando de nós tudo aquilo que, da nossa mente formada segundo os padrões do nosso mundo e sua cultura, não se harmoniza com o evangelho e nos impede de ser e viver como cristãos genuínos, e nos conduz a viver segundo a mente formada pelo mundo, isto é, pela cultura da sociedade em que vivemos.

    É na mente, onde se dá a grande batalha entre evangelho e cultura, entre a vontade de Deus e o pecado, Esta compreensão nos leva também a um novo entendimento do caminho que o salmista propõe a si mesmo para viver segundo a vontade de Deus, dizendo: “Escondi a tua palavra em minha mente, para eu não pecar contra ti, ó Deus.” É na mente do novo convertido que se decide se Jesus é o Senhor da sua vida, ou se o mundo e sua cultura continuam reinando sobre ele.

    Por isso, é urgente e vital a compreensão desta realidade e com ela, a construção de novas formulações conceituais (especialmente na área da antropologia teológica) e, simultaneamente, uma nova proposta de educação cristã afinada com esta realidade e com as exigências deste novo tempo que estamos vivendo.

    O segundo exemplo de defasagem e imprecisão linguísticas está no inapropriado, equivocado e prejudicial uso da imagem do templo como identificador da igreja, mas este será o nosso assunto na segunda reflexão desta série, a ser postada na próxima semana.

    Continua…

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  • Há um preço a pagar – parte 2

    Há um preço a pagar – parte 2

    Pr. José Carlos Torres

    ¨Se o meu povo que se chama pelo meu nome se humilhar, orar, me buscar e se desviar dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, o perdoarei dos seus pecados e sararei a sua terra.¨ (II Crônicas 7:14).

    Na mensagem anterior, antes de considerar as condições postas por Deus para abençoar o seu povo, destacamos três expressões fundamentais que geram e explicam as exigências que lhes são consequentes.

    Quais são as condições que Deus coloca diante do seu povo e de cada servo seu, segundo a mensagem do texto em consideração, para que por ele sejam abençoados nas diferentes dimensões de suas vidas?

    1- A primeira condição é retratada nesta expressão: “Se o meu povo se humilhar”.
    Não parece paradoxal esta exigência e condição para ser abençoado pelo Senhor? Como ser servo sem ser humilde? Mas o paradoxo fomos nós que o criamos, dizendo-nos povo de Deus, mas vivendo sem compromisso real com o seu senhorio sobre nossas vidas.

    A única forma de se viver diante de Deus, como servo, é sendo humilde. Somente sendo humildes, reconheceremos seu senhorio sobre nós e teremos condições de ser-lhe conscientemente obedientes. Chega de soberba, orgulho e vaidade! Chega de hipocrisia, desobediência e vida corrompida pelo pecado!

    A humildade é o caminho para que sejamos abençoados pelo Senhor. Esta afirmação está alinhada com o que Jesus nos diz em Mateus 5:3: “Bem aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus”. Da mesma forma, está em harmonia com a mensagem colocada pelo profeta Amós sobre o que seja o cerne da vontade de Deus para seus servos e seu povo: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?” (Miquéias 6:8)

    2- A segunda condição é traduzida nestas palavras: Se o meu povo “se desviar dos seus maus caminhos”.
    É impressionante o realismo bíblico! Fala sobre o povo de Deus e, de forma transparente e honesta, muitas vezes o mostra andando por caminhos que não são os do Senhor, que são caminhos maus! É isso mesmo! Basta que lhe falte humildade e deixe de ver que a vida feliz, como Jesus disse, “consiste em fazer a vontade do Pai que está nos céus.
    E não adianta espernear, pois não há vida em Cristo, aqui na terra, sem a ameaça ou a tentação do pecado, como podemos nos lembrar nos exemplos de Abraão, Jacó, Davi, Salomão, Judas, Paulo e outros mostrados na própria Bíblia.

    Fique a advertência: andar em maus caminhos, fecha os ouvidos de Deus aos nossos clamores e, ao invés das bênçãos que podemos receber dele, restarão apenas as migalhas que o mundo dá, levando-nos ainda ao engano de pensar que essas migalhas são bênçãos do Senhor.

    3- A terceira condição é traduzida nesta outra expressão: “Se o meu povo orar”.
    O Senhor pode escutar nossas orações ou, de outro modo, fechar seus ouvidos às nossas súplicas. Tudo depende de o Senhor nos encontrar ou não no caminho da fidelidade aos seus mandamentos.

    A oração que Deus escuta é a do crente que, comprometido radicalmente com a fidelidade a ele, ora e fala ao Senhor tudo que vai ao seu coração, e lhe pede o que pensa e deseja; do crente que ora e escuta o Senhor falar a sua vontade, até que rápida e paulatinamente dela torna-se consciente; do crente que ora, fala, escuta e, uma vez convencido da vontade divina, apenas diz, como Jesus nos deixou o exemplo: “Seja feito o que Tu queres.”

    4- A quarta e última condição é assim retratada: “Se o meu povo buscar a minha face”.
    Esta expressão significa buscar a comunhão com o Senhor e uma vida vivida na sua santa presença. Isso se torna muito menos difícil de se realizar quanto temos consciência de que nossas vidas foram transformada em templo do Espírito Santo, e ele habita em nós.

    Quando vivemos conscientes desta verdade, logo nos apercebemos de que não há como escapar da presença de Deus, pois o Senhor não apenas está conosco, mas ele vive em nós.
    Por isso mesmo, Paulo nos diz que não devemos “entristecer o Espírito Santo” o que se dá quando pecamos; nem apagar as marcas da sua presença em nossas vidas, o que acontece quando pecamos tão contumazmente que ninguém pode enxergar os frutos da sua presença santificadora em nós.
    Mais ainda, o apóstolo aos gentios nos exorta a buscar uma vida cheia do Espírito Santo, na qual o pecado tenha cada vez menos lugar, e a vontade de Deus seja feita como a coisa mais natural, como deve ocorrer na vida de um cristão, o qual é um seguidor Jesus, o mestre que nos deixou o exemplo que nos vem nestas suas palavras: “A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou”.

    Creio que a vida do crente e de todo povo de Deus, seria diferente se tivéssemos consciência da morada do Espírito em nossas vidas. Seria muito mais difícil pecar e andar em caminhos que não fossem do Senhor. Seria muito mais fácil resistir e vencer as tentações, esvaziar-nos cada vez mais de pecados, para que assim, vendo realizar-se a vontade de Deus em nós, vivamos mais e mais na plenitude do Espírito Santo?

    Estamos dispostos a pagar o preço? Queremos verdadeiramente ser abençoados por Deus? As condições para tanto estão claramente expostas pelo Senhor neste breve texto da sua Palavra. Aí está o caminho para o verdadeiro avivamento (vida de Deus em nós) e para um novo tempo de comunhão e compromisso com Deus que resulte na glorificação do seu nome no meio do povo seu, por ele abençoado para abençoar vidas.

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