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  • Para falar do Evangelho e vivê-lo hoje – parte 1

    Para falar do Evangelho e vivê-lo hoje – parte 1

    Pastor José Carlos Torres

    Hoje e em mais quatro breves reflexões vou conversar com vocês sobre alguns assuntos que avalio como de fundamental importância para a formação de cada um de nós, como servos de Cristo, e para contribuir na restauração da relevância da pregação cristã. Nesta primeira reflexão, tomo como referência o texto de Paulo, no capítulo 12 da carta aos Romanos, versos 1 e 2:
    “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que possais experimentar qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.”

    Começo destacando dois grandes males que muito prejudicam a vida da igreja e, assim, dos cristãos deste nosso tempo: a defasagem e a imprecisão linguísticas, e a indefinição conceitual.
    Para enfrentar a realidade da defasagem e da imprecisão linguísticas que geram a obsolescência do discurso cristão hoje e dificultam sua compreensão, não basta tentar traduzir a Bíblia para a linguagem de hoje. É necessário, também, livrar-nos da pesada carga cultural de conceitos que não servem à boa comunicação do evangelho e, até mesmo, se constituem em duros empecilhos para o entendimento de algumas verdades bíblicas muitíssimo importantes para a compreensão dos ensinos de Jesus e a consequente prática dos mesmos. Vejamos dois exemplos disso.

    O primeiro, estampado na ênfase que ainda se faz na mudança de coração que o crente deve experimentar, sem qualquer consideração à compreensão da fisiologia humana que hoje temos e das funções que coração e cérebro desempenham em nossos corpos e em toda a nossa vida. Hoje, sabe-se sobejamente que coração não pensa, não sente, não é sede de atitudes, não tem vontade, não é sede da memória e não pensa. Se assim é, como mudar o coração, de tal maneira que uma vida seja transformada?

    Vidas não são transformadas mudando corações, mas mudando mentes (isso é coisa que se dá no nosso cérebro), isto é, pensamentos, atitudes e comportamentos, e estes, não por mimetismo ou por imitação, mas pela expressão do que verdadeiramente se é como pessoa.

    Só há uma forma de mudar o coração de uma pessoa, e esta acontece através de um transplante, resultante de uma cirurgia, e isso não leva a mudar a sua vida. O transplantado continua a ser a pessoa que era antes, sem maiores transformações que os benefícios e limitações que alcançam a todos os que passam por este tipo de cirurgia.

    Hoje, sabe-se que as grandes mudanças que ocorrem na vida de qualquer ser humano, em qualquer lugar do mundo, dão-se através da mudança da sua mente e dos pensamentos centrais e seminais que a ela dão forma. Foi esta compreensão que levou o apóstolo a dizer, em Romanos 12:2, aqui numa tradução livre: “Busquem todos vocês a transformação das suas mentes, para que vocês possam discernir e experimentar vivencialmente toda a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”.

    Em tese, o apóstolo propõe que permitamos que o Espírito Santo (e aí está o que somente o Espírito pode fazer) vá formando em nós uma nova mentalidade, “a mente de Cristo”, como Paulo a chama, e extirpando de nós tudo aquilo que, da nossa mente formada segundo os padrões do nosso mundo e sua cultura, não se harmoniza com o evangelho e nos impede de ser e viver como cristãos genuínos, e nos conduz a viver segundo a mente formada pelo mundo, isto é, pela cultura da sociedade em que vivemos.

    É na mente, onde se dá a grande batalha entre evangelho e cultura, entre a vontade de Deus e o pecado, Esta compreensão nos leva também a um novo entendimento do caminho que o salmista propõe a si mesmo para viver segundo a vontade de Deus, dizendo: “Escondi a tua palavra em minha mente, para eu não pecar contra ti, ó Deus.” É na mente do novo convertido que se decide se Jesus é o Senhor da sua vida, ou se o mundo e sua cultura continuam reinando sobre ele.

    Por isso, é urgente e vital a compreensão desta realidade e com ela, a construção de novas formulações conceituais (especialmente na área da antropologia teológica) e, simultaneamente, uma nova proposta de educação cristã afinada com esta realidade e com as exigências deste novo tempo que estamos vivendo.

    O segundo exemplo de defasagem e imprecisão linguísticas está no inapropriado, equivocado e prejudicial uso da imagem do templo como identificador da igreja, mas este será o nosso assunto na segunda reflexão desta série, a ser postada na próxima semana.

    Continua…

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  • O lugar da humildade na vida cristã

    O lugar da humildade na vida cristã

    Pr.Sergio Dusilek

    Está em curso no protestantismo brasileiro, quando se pensa em relação ao poder, uma espécie de feudalismo cristão. Alguns líderes se encastelam exercendo influência nas suas imediações, possuindo inclusive ares de suserano. Aliás quanto mais impositivo e postado for o líder, quanto maior for sua audácia em decretar ordens ao divino, tão mais admirado ele se torna. Se no protestantismo há uma iconoclastia, coa-se as imagens mas deixa-se passar a idolatria à pessoa, uma vez transferida para a figura do líder. Mais do que suserano, o líder se tornou uma espécie de demiurgo.

    Fato é que essa postura rompe com a humildade, virtude básica e imprescindível para o cristianismo e para o cristão. Nada tão estranho quanto ao espírito do cristianismo quanto esse apego pelo poder, pela posição e pelo palco. Vale a pena lembrar que o cristianismo (ou cristandade, como preferiria Heidegger), nasce numa manjedoura e não num palácio…

    É pelo resgate da humildade que sugiro essa reflexão. E quando falo em humildade não abordo o seu estereótipo. A vaidade precisa de estereótipos e se transmuta neles. A humildade não. Aliás qualquer penduricalho que se coloque sobre a humildade a torna descaracterizada. Nesse sentido, destaco que: a) a pobreza pode ser sinal de um tipo de humildade, a financeira, mas não significa humildade cristã. Há muito pobre orgulhoso, com cerviz dura, que resiste a Deus e aos outros; b) a cara de piedade, de auto-comiseração não é sinal de humildade. É de patologia mesmo; c) a voz mansa igualmente não é sinal de humildade. Sob uma voz mansa se escondem muitas vezes corações duros como a pedra. A humildade cristã tem a ver com postura em relação a vida, a Deus, num reconhecimento da finitude pessoal e da necessidade de outros.

    Passemos agora a algumas considerações sobre o lugar da humildade cristã.

    A Humildade Cristã é o meio de compreensão da Relevação (Fil.2:6-8)

    Auerbach bem asseverou que se Cristo viesse em todo seu esplendor e glória não haveria revelação. Primeiro porque ninguém conseguiria compreender o que seria mostrado. Segundo porque impediria o processo de interpretação e registro do conteúdo revelatório. Ao se humilhar, ao encarnar, Cristo tornou a revelação divina acessível aos homens. Sem humildade não é possível compreender nada a respeito de Deus.

    Os umbrais do entendimento humano não conseguem açambarcar a plenitude da Glória de Deus. Da sua Shekinah temos somente emanações, nas experiências espirituais e presença como símbolo salvífico.

    A Humildade Cristã é o meio de compreensão da Palavra (Mt.13:13,23; 5:3)

    Há uma caráter universal na mensagem bíblica. Mas como ela pode ser acessível a todos os homens? Mediante a humildade. O intellectus spiritualis só é acessado pelo caminho da humildade. Quer entender a Palavra de Deus? Seja humilde. E humilde aqui se traduz num coração pronto, como uma terra fofa pronta para receber a semente.

    A Humildade Cristã é o meio para a unidade da Igreja (Col.3:12; Rm.12:16; I Pe.3:8)

    Segundo o dicionário, humildade é “a virtude que nos dá a dimensão de nossa fraqueza”. Ao nos enxergarmos como fracos, reconhecemos a necessidade de ajuda, de andar com o outro, do apoio do outro. Por isso que o autor de Hebreus dizia que não era bom abandonar a congregação (Heb.10:25). Há momentos que essa teia chamada igreja será o recurso que Deus usará para nos segurar, nos sustentar, nos suportar.

    Pela humildade eu posso caminhar junto. É sobre ela que se sedimenta o caro conceito da unidade. Ora, se cada um se bastasse, se cada pequeno grupo se bastasse, para que a Igreja? Mas não, a Igreja está construída num aspecto humano, sobre uma necessidade que é a nossa fraqueza.

    A Humildade Cristã é o canal para Salvação (Mt.19:23-24)

    Por que o camelo passar pelo fundo da agulha? Por que a dificuldade do rico em entrar no Reino de Deus? São figuras que apontam para a necessidade de humildade. O camelo porque a agulha era um limitador de altura na entrada que obrigava o camelo a se ajoelhar, mesmo carregado. E o rico porque se bastava…

    A condição primeira para salvação é humildade. Era o que faltava ao jovem rico. Ele era o retrato da autopretensão. O que mais preciso fazer para ser salvo? – perguntava. Ora, a resposta era nada (porque a salvação fora feita por Deus) e tudo (precisava abdicar de usa posição pretensiosa). Sem humildade não reconhecemos a necessidade de um salvador. Sem humildade não abdicamos dessa postura moderna de tentar resolver tudo, inclusive de ser capaz de efetivar uma auto-salvação. Sem humildade não há descanso em Deus.

    Conclusão:
    Não estamos aqui para sermos senhores, nem tampouco orgulhosos. Estamos aqui por conta da humildade. E saiba que uma pessoa que se afasta da Igreja tem na perda da humildade um de seus motivos fundantes.

    Você “pode” ser maduro espiritualmente para não precisar de igreja; mesmo assim e especialmente nesse caso, a Igreja precisará de você, missão esta que precisa ser acolhida com humildade. Pense nisso.

    Extraído do blog pessoal sergiodusilek.worpress.com

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