Estive preso

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Samuel Lourenço Filho, 28 anos, conheceu o evangelho na prisão. Hoje é exemplo vivo de reabilitação em Cristo

Eu era um jovem criado em um contexto urbano e rural. Gostava da natureza, andar a cavalo, vender leite de carroça… Era até engraçado porque vendia leite de dia e de noite ia estudar no centro da cidade. Era rural e urbano.

Eu e meu irmão sempre estávamos ligados a coisas que pudessem nos dar retorno financeiro. Ao tempo que isso gerava um retorno, dava a sensação aos outros que éramos homens da casa. Isso nos fez crescer em meio a pessoas mais velhas e hoje vejo um problema o fato de eu ter crescido com pessoas com mais de 20 ou 30 anos. Porque algumas das pessoas adultas com as quais eu convivia bebiam.

A gente cresceu nesse contexto e, querendo ou não, a gente absorve isso. Posso assumir que isso trouxe consequências para minha vida. O consumo da bebida alcoólica aconteceu de modo recreativo a princípio. Era divertido beber com os amigos e ainda mais divertido beber escondido dos pais. Não era habitual, mas bebia. Para mim, isso não era um problema porque as notas da escola continuavam boas, não havia problema para o bairro, então não tinha problema.

Quando comecei a estudar no centro do Rio foi um momento de choque cultural, mas havia uma expectativa de estudar ali. Foi o momento em que vivi a adultização precoce. Me tornei adulto muito cedo e agora sou aquele rapaz que sai de casa para estudar e, como as aulas terminavam às 22h, me envolvi com o contexto boêmio. Fui me envolvendo e tentando viver a minha vida. Nessa época, beber se tornou uma prática e minha família ou não se preocupou ou não notou. Porque eu consegui estudar e estava indo bem, portanto, as consequências disso não eram aparentes. Houve uma vez em que uma vizinha chegou para minha mãe e disse: “Samuelzinho anda bebendo demais”. E minha mãe disse: “Qual o problema? Ele anda trazendo problema ao ser bar, bebe e não paga?”. Eu achava que, na força da juventude, eu dominava a bebida e não o contrário. Na verdade, não se percebe que você já está dominado.

Minha mãe faleceu e o consumo da bebida aumentou muito. Nesse período eu acredito que entrei em um estágio degradante da minha vida porque eu lembro que a primeira coisa que aconteceu foi que minha casa acabou. Tínhamos eletrodomésticos sofisticados para o nosso contexto e para aquele tempo e eu vi essas máquinas virando morada de morcegos e ratos. Minha casa se destruiu. Meu pai sofreu muito e logo contraiu um novo relacionamento. Minha irmã já havia saído de casa, mas eu e meu irmão ficamos. É um momento difícil porque percebi que não tinha mais família. De olhar para o mundo e ver que era apenas eu e a vida. E a vida era séria e tive que enfrentar isso, mas sem ter a estrutura para enfrentar. Faltou o núcleo familiar.
Minha vida acabou ali. É o momento em que não tinha mais nada. Eu trabalhava para sustentar o vício. Recebia na sexta-feira e no domingo à noite já tinha dívida no bar de novo. Minhas roupas eram as piores… e estou falando de um jovem com apenas 17 anos.

Nesse tempo, recebo um convite para morar com familiares no Paraguai. Nunca me falaram se foi por bebida, pela morte da minha mãe… foi apenas um convite. Fui para o Paraguai, outra cultura, outro país… tudo novo. Mas a sensação não era a de vida nova. Isso não aconteceu. Comecei a viver no Paraguai e lembro que um dia liguei para casa e fiquei sabendo que minha avó tinha morrido há três dias. Ela disse que não contaram antes por causa do meu aniversário. Naquele momento veio um medo no meu coração de que as coisas aconteciam e eu não sabia.
Houve um domingo de manhã que acordei e chorei muito. Lembro que eu tinha uma cadela que, ao me ver chorar, foi lamber meu rosto e eu deixei por pensar que não havia mais ninguém que pudesse enxugar minhas lágrimas. Naquele dia arrumei minhas coisas e decidi voltar ao Brasil. Eu queria estar próximo da minha família aqui no Rio.

Voltei, mas havia a frustração de ter envergonhado minha família. Porque eu fui alguém que deixou o país, mas não conseguiu cumprir a missão. Eu fraquejei e voltei no meio do caminho. A sensação era de que não conseguia fazer um plano que pudesse prosperar.

Samuel dando testemunho no Acampamento de Promotores Missões Rio
Samuel dando testemunho no Acampamento de Promotores Missões Rio

Um crime
Aqui no Rio prestei vestibular e fui aprovado, mas, quando comecei a estudar, logo abri mão da faculdade. Voltei a trabalhar na feira e a beber. Nessa época estava indo para 20 anos. Estava bem perdido. Foi nessa época em que cometi um homicídio. Trabalhava com um amigo que estava com um problema extraconjugal e essa relação começou a afetar o relacionamento com sua família. A amante dele começou a ameaçá-lo, dizendo que ia destruir a família dele. Eu acabei tomando as dores dele. Pensei comigo que não poderia deixar uma família ser destruída. Na verdade, ele mesmo já estava destruindo a própria vida, mas eu não parei para pensar nisso na época. Eu só entendia que a família dele era muito bonita e não podia ser destruída como a minha tinha sido no passado.

O crime aconteceu em um contexto absurdo de luz do dia, na presença de pessoas, o que fez com que houvesse uma ação imediata da polícia. Houve tiro, mas não me atingiu e eu, em um momento de lucidez, resolvi me entregar. A história aqui não foi que a vítima se tornou culpada. Não é isso! A história é que agimos de maneira insana mesmo, cometendo esse ato de tirar a vida de alguém. Foi a coisa mais insana da minha vida! A família dele foi destruída, a família da vítima e a minha foram destruídas. Acabou tudo!
Quando cheguei à prisão pensei que fosse morrer lá dentro, mas nada do que eu temia aconteceu naquele momento. O que aconteceu foi que meus familiares chegavam e diziam: “Você tem noção do que você fez?”. E eu só conseguia responder: “Agora não adianta chorar pelo leite derramado! Acabou. Vou cumprir minha pena”. Momentos depois a ficha caiu e eu senti toda a carga dessa culpa. Vi meu pai chorar muito no momento da minha prisão. Isso se deu em abril de 2007.

Na prisão começou uma conscientização mínima, um peso de culpa. Quando começa a conversa [com outros presos] na cela, ouvia que tomaria muita cadeia. Ficava o sentimento de que agora estava tudo acabado. Lembro do transporte dos presos e, na época, vinha à mente a forma como as pessoas da Segunda Guerra Mundial eram transportadas. Em lugar que cabiam três pessoas, tinham oito ou nove. Um calor… constantemente desmaiava.

Houve um momento que me senti tão culpado que um amigo chegou pra mim e disse: “Você acredita que Jesus pode te perdoar?”. “Jesus pode me perdoar? O cara mata e agora Jesus pode me perdoar? Tá bom então”, respondi cético. Ele continuou: “É sério! Existe perdão pra tua vida!”. “Não existe perdão pra minha vida! Quem mata tem que morrer”, eu retruquei. Era um discurso que trazia da minha cultura, do meu contexto. Ele me perguntou se podia orar por mim e eu aceitei, mas avisei que não era para colocar Jesus e a Bíblia nesse crime. Na medida em que ele começava a orar eu chorava muito porque parecia que era um momento de esperança. Depois disso eu, falando comigo mesmo, decidi assumir tudo isso perante o tribunal. Disse à minha família que diria toda a verdade e que assumiria toda a verdade do que fiz. Foi naquele momento que me senti uma pessoa livre. Eu lembro que algumas pessoas tentaram me persuadir para que eu não contasse toda a história, que eu iria passar o resto dos meus dias na cadeia, mas não me importei.

Conscientização
O processo do julgamento se arrastou por dois anos e, nesse período, fui me envolvendo com o evangelho dentro da prisão. As pessoas comentavam, dizendo que eu tinha um futuro no Reino de Deus e eu brincava: “Que futuro o quê? Vamos aceitar o perdão, mas não vamos nos esconder atrás da Bíblia”. Nesse tempo fui descobrindo que havia uma chamada mesmo. E descobri que se eu não tivesse a Bíblia como escudo e Cristo como defensor, ninguém o faria. Hoje assumo que dependo da fé em Cristo.

No início dessa trajetória de dois anos quase não falava. Na primeira vez em que fui convidado a pregar no culto, me pediram dez minutos e eu falei três, tremendo muito e de olhos fechados. Fui remanejado para outra unidade e foi onde cresci mais espiritualmente, assumi novas responsabilidades. Eu me aproximei das pessoas que já eram evangélicas ali e comecei a me integrar, a falar mais e mais, fazer reflexões com apropriações bacanas e todo mundo parava para ouvir. Isso era fruto do Espírito Santo! Nessa fase eu era chamado para ajudar quando havia problemas entre os presos na cela, eu comecei a ganhar credibilidade e vi nisso a mão de Deus. Percebi então que minhas experiências na cadeia me levaram a crer que minha prisão trata algo que está além de um crime. Minha prisão quer tratar comigo dos problemas de minhas escolhas, do meu modo de pensar… foi quando comecei a perceber que as pessoas ali podem se reabilitar.

No segundo semestre de 2009 fui sentenciado a 14 anos de prisão. [Recentemente até encontrei o juiz que me sentenciou e a gente se abraçou. Foi engraçado eu olhar para ele e contar toda a história, dizendo: “Olha o que eu fiz com a cadeia que você sentenciou?”] . No dia 11 de setembro de 2009, fui transferido da carceragem para o presídio. Com essa sentença, todo mundo chegava e dizia que servir a Deus no presídio era mais difícil. Eu estava com esse desafio, de permanecer cristão mesmo tendo mudado de unidade, de percepção de vida. Digo isso porque às vezes rola um discurso irresponsável como se o preso tivesse que ser absolvido porque aceitou a Cristo. O que aconteceu é que Deus tinha coisas para mim no meu processo de prisão.

Ressocialização pela educação
Eu queria permanecer em Cristo. Cheguei a São Cristóvão, onde tive o primeiro contato com a capelania prisional da Convenção Batista Carioca. Eu começo a meu envolver com os trabalhos de culto ali, mas percebo que também tinha que voltar a estudar. O que fiz um ano depois da minha chegada.

Um dia estou transitando pela unidade e soube que havia passado para a segunda fase da UERJ. Fiquei muito feliz porque de 40 presos que tentaram, eu era um dos três que tinham conseguido passar para o processo de qualificação final. Eu vivi essa alegria e tinha escolhido a Pedagogia. Nesse momento, o pastor Claudio Barreto teve uma participação muito especial na minha vida. Ele me trouxe uma série de provas antigas da UERJ e o conteúdo programático. Com esse material na mão, eu comecei a me nortear melhor.

Nas celas evangélicas, as atividades eram rigorosas e meus colegas, vendo meu esforço, começaram a me dispensar das atividades para eu poder estudar.

Em 2012, dia 16 de janeiro, fui convocado para ir ao gabinete do diretor. Eu fui com medo por pensar que tinha feito algo errado. Ele me chamou para me dar os parabéns e jogou uns papéis na mesa, os papeis de aprovação da UFRJ. Lembro que eu entrei nesse clima do preso que entrou para a UFRJ. Depois recebi outros resultados, sendo aprovado também para a UERJ.

Quatro meses depois, as aulas começaram e eu nada. Havia uma restrição de pena que eu precisava cumprir em regime fechado. Perdi a vaga, mas comecei a estudar de novo e consegui passar novamente para a UERJ. Depois, já em 2013, minha pena havia progredido e mudado para semiaberto. Em abril fiquei sabendo que o juiz havia permitido meus estudos.

A crise agora era: “Como vou viver lá fora? Aprovado numa faculdade pública e lá está cheio de gente”. Mas prometi para mim mesmo que precisava viver e nessa fase fui fortalecido pelo Pr. Cláudio e outras pessoas. No dia 24 de abril de 2013, depois de seis anos de pena cumprida em regime fechado, as portas se abrem.

Desafios do lado de fora
Foi um choque. Um monte de novidades que nunca havia visto na vida, a agitação, telefone touch e com internet. Todo mundo plugado e eu achando que todo mundo sabia da minha vida e que iam me matar… eu cheio de medo. No meu primeiro dia de aula, Pr. Cláudio estava lá na porta da faculdade, me esperando. Quando nos encontramos, ele disse: “Olha aí onde você está? Agora vai viver”. A gente se abraçou e eu chorei muito.

Éramos eu e outro preso na faculdade. E decidimos encarar de frente, assumindo que éramos presidiários. Isso a princípio foi um choque, uns se aproximando e outros se distanciando. Nesse período conheci um rapaz da Igreja Batista do Rocha e disse a ele: “Eu preciso de um irmão. Compartilho da mesma fé que você e não sei como você vai receber tudo isso, mas sou presidiário e preciso de um irmão com a mesma fé, que entenda que, apesar do passado, eu posso ter uma vida nova”. Ele falou assim: “Vamos juntos!”. Leandro é uma pessoa que me ajudou muito na faculdade e me ajuda até hoje. A gente começou a caminhar juntos e ele começou a mediar meu relacionamento com os outros colegas, falando bem de mim. É claro que ainda passava por resistências e ainda bem que eu passei [e passo] por algumas resistências. É o que eu falo para todo mundo: “Não quero viver numa sociedade onde todo aquele que comete um crime, as pessoas digam: “Ah! Nada a ver, vem pra cá!” Porque aí é a banalização de tudo, da vida, da humanidade. Tem que se chocar, as pessoas têm que se surpreender, mas a gente recomeça a partir daí.

Paradigmas quebrados
Uma cena muito fantástica marcou a minha vida. Aconteceu com os colegas da UERJ. Quando souberam que estava expirando o prazo concedido pela justiça para que eu pudesse estudar, todos vieram questionar o motivo pelo qual eu não poderia mais estar com eles. Amigas de faculdade começaram a chorar e ficou um momento legal porque o rapaz preso agora faria falta na sala de aula. E aí todos comentavam que a visão de presidiário em suas casas agora era outra.

Nessa fase, comecei a estudar novamente e descobri a faculdade de Gestão Pública na UFRJ. Dediquei-me e saiu a provação. Fiquei muito feliz e pensei que finalmente meu momento havia chegado. Consultei amigos, professores, o Pr. Cláudio e tomei a decisão de ir para Gestão Pública. Quando fiz a transferência da faculdade, foi um dia terrível porque todos sabiam que era meu último dia de aula. Esse dia me marcou muito porque a professora deu boa noite e todos começaram a se olhar, a se levantar e a chorar comigo. Essa deveria ser uma hora de alívio porque um preso estava deixando aquele ambiente, mas não. Ali já não era uma ameaça de perigo, mas um jovem que transmitia a graça de Deus, que tinha compromisso com o evangelho e que ia fazer falta.

Agora teria que entrar em outro processo na justiça para estudar novamente. Nessa época, comecei a dialogar com os alunos da UFRJ e a assumir minha condição de preso. É uma luta política para mostrar que o preso está dentro da sociedade, que o preso compõe a sociedade. E a sociedade precisa entender que ignorá-lo é potencializar a violência. Eu comecei a discutir isso nas universidades, que a sociedade precisa saber que está convivendo com essas pessoas.

Finalmente as aulas na UFRJ começaram, mas eu não conseguia estudar. Fiz algumas disciplinas pela internet e ainda não havia conseguido liberação. Isso me desanimou, mas conversando com Maíra, ganhei ânimo para continuar com o processo de liberação até que finalmente consegui.

Certa vez um amigo me disse que não acreditava em nada dessas coisas de Deus, etc. Mas perguntou o que era isso na minha vida. Foi a oportunidade que encontrei para falar de Deus, que era um preso miserável, que estudei, que alcancei, tudo como reflexo de Deus na nossa vida. Hoje participo de congressos, escrevo artigos e participo de grupos de pesquisa como voluntário e os congressos dos quais participo, só consigo porque recebo a ajuda de pessoas, professores meus inclusive. Há uma professora que sempre me ajuda, me dá até alimento.

Hoje trabalho, fazendo limpeza, mas também estou na universidade. De uma coisa eu sei: eu não posso parar porque é Cristo que me fortalece, que me ajuda. Acreditar no outro é difícil, mas é tempo de voltar a creditar no ser-humano porque é a imagem de Deus. A vida é uma construção coletiva porque em todo tempo a mão do Senhor me susteve, mas não vi a mão sobrenatural dEle, mas as mãos de pessoas que me ampararam, se estendendo para ajudar. O que fica é a gratidão a esse Deus.

Sempre vou me lembrar da atitude de Paulo, falando sobre Filemon: “Recebe esse rapaz de volta, mas não como escravo, e sim como irmão porque ele é muito útil pra mim”. Tem valores e potenciais úteis para o Reino. Em alguns momentos, vejo o próprio Deus dialogando com sua igreja sobre essa questão: “Recebe o Samuel, mas não como preso, homicida, alcoólatra, fracassado. Recebe ele como irmão precioso”. Não sou exceção, há pessoas como eu por aí, que já viveram isso e que estão em busca de oportunidades.