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  • O grito de Raquel, o grito da Igreja

    O grito de Raquel, o grito da Igreja

    Pr. Eraldo Coelho Bernardo

    “Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, senão eu morro” – Gên.30.1 (IBB – VR, de acordo com os melhores textos em hebraico e grego).
    Raquel, a esposa amada de Jacó. A esposa por quem trabalhara sete preciosos anos de sua juventude e que foram como que poucos dias, pelo muito que a amava (Gên.29.20).

    Ela era estéril. A impossibilidade de uma mulher judia naqueles dias de gerar filhos era tida como um opróbrio, isto é, como desonra, afronta, vergonha, como definem os dicionários. Chegou um momento de sua vida e de seu relacionamento conjugal em que o que estava latente em seu coração não dava mais para segurar , tinha que ser verbalizado de uma forma candente, como expressa o texto sagrado: “Dá-me filhos ou morro”.

    Ela não aceitava mais, pacificamente, aquela situação, vendo que outra (sua irmã) e outras mulheres podiam engravidar e dar à luz filhos e ela não. Se ela em tudo era normal, menos nesse particular. Se ela estava casada com um homem saudável. Se ela estava vivendo numa atmosfera em que Adonai (O Senhor) se fazia sentir, por quê a limitação vivida por ela?

    Creio que este é também o grito da Igreja que pensa, que se autoavalia, que conhece a sua história como igreja local. A igreja que está estéril. A igreja que não produz “filhos espirituais”. A igreja que cresce não como fruto de “dores de parto”, como Paulo escreve às igrejas da Galácia: “Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós”(Gál.4.19), mas pelo remajamento de membros(portabilidade) de uma igreja para a outra, a maioria deles eivados de vícios eclesiáticos.

    Os membros de nossas igrejas desde a década de 60 do século passado desaprenderam de evangelizar , ou melhor, deixaram de obedecer a ordem de Jesus que é: “ vão e façam discípulos…”(Mt.28:19ª – NVI). Vivemos dias em que as igrejas vivem de programas. São os mais diversos. Lindos, maravilhosos. Saímos das reuniões como que andando em nuvens. Colorido variado, arranjos musicais celestiais, coreografia maravilhosa. Mexem com os nossos olhos e com as nossas emoções e com os nossos esqueletos… Nada contra tudo isso de bonito, artístico, que dá muito trabalho para ensaiar, mas, e o resultado prático em “filhos espirituais”, em “novos nascimentos”(Jo.3)?

    Paciente leitor, a Raquel de Gênesis 30 não se contentou com uma série de coisas boas que a rodeavam… Ela queria parir (dar à luz) filho, filhos…. e ela não aceitou a condição que lhe foi imposta… e a Palavra nos diz, no mesmo capítulo, lá nos versículos 22 a 24 o seguinte:  “Também lembrou-se Deus de Raquel, ouviu-a e a tornou fecunda. De modo que ela concebeu e deu à luz um filho, e disse: Tirou-me Deus o opróbrio. E chamou-lhe José, dizendo: Acrescente-me o Senhor ainda outro filho”.

    Há um Deus que nos prova, que se lembra, que ouve, que torna fecunda, que possibilita conceber e dar à luz filho e filhos. Creio que só com “dores de parto”, isto é, querendo, com insistência, desconforto, e com “lagrimas” é que a igreja dá à luz “filhos espirituais”. “Os novos nascimentos” não ocorrem com efeitos especiais, luzes e cores… O Salmo 126 fala de “semear “chorando”. As orações da igreja têm sido com olhos secos, enxutos. Só com olhos molhados de lágrimas é que os “filhos espirituais” vão nascer. Só quando, com lágrimas nos olhos, com sentimento em nossos corações dissermos diante de Deus: “Deus, por favor, salve meu irmão “fulano de tal”. Deus, por favor, salve meu filho “João”, salve minha filha “Débora”, salve o ascensorista de meu prédio, “o Manuel”, salve meu professor “Filipe”, objetivamente. Deus ouviu a oração “molhada” de Raquel.

    Tenho constatado nesses meus quarenta anos de Ministério Pastoral que a maioria dos líderes cristãos não é ganhadora de almas, através do evangelismo pessoal. A investidura ministerial é tão pesada e tão santa que eles têm deixado de ser práticos e a maioria não conhece a pescaria “com anzol”. O Deus é o mesmo. Ele não muda. Nós mudamos. ,A igreja tem mudado muito e para pior, no que tange a multiplicar-se e em outras áreas.

    O que Deus fez com Raquel pode e quer fazer com a igreja hoje. E o que me impressiona em Raquel é que ao dar à luz um filho deu-lhe o nome de José, que significa, segundo o dicionário da Bíblia de John D. Davis “possa ele acrescentar”, isto é, “quero outro”, “quero mais”… Esse deve e tem de ser o espírito da igreja, o espírito de Raquel, eu quero mais….eu quero o bairro, queremos ganhar o Brasil para Cristo… e Deus que é generoso deu mais.  Deu Benjamim, ainda que para isso ela tivesse de morrer em meio às “dores de parto” , em meio a um mar de lágrimas.  Deu dois príncipes a Israel. Deu gente de muito valor para o povo e nação de Israel e para o novo Israel, a igreja espalhada por toda a terra.

    A Igreja precisa gerar novas pessoas preciosas , comprometidas com Deus e com sua Obra, menos preocupadas consigo mesmas e mais preocupadas com o Reino, para levar a nossa denominação e as demais denominações evangélicas a um porvir glorioso. José, conhecemos a sua rica, emocionante e inigualável história. Ele tinha o coração de sua mãe, aprendeu a chorar. Chorou ao rever os seus irmãos que o venderam aos Ismaelitas.  Benjamim, foi dele que foi escolhido o primeiro rei de Israel, Saul. Foi de Benjamim que brotou, no tempo de Deus, um menino chamado Saulo, que veio a ser o nosso amorável irmão e apóstolo Paulo. Oh! Glória a Deus!!!

    Lembre-se, eu e você somos igreja. Quantas pessoas você está evangelizando? …Quantos discípulos você tem?… Quais os nomes deles? … Seja esse o grito da igreja hoje, o grito de Raquel: “Dá-me filhos, senão eu morro” . E morre mesmo… Quantas igrejas já morreram no velho continente e em tantos outros lugares do mundo, inclusive no Brasil !

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  • Igreja e Voluntariado

    Igreja e Voluntariado

    Pr. Sérgio Dusilek

    Num tempo de crescente profissionalização, muitos líderes se ressentem de não poderem contar com os voluntários que, ao que tudo indica, antes existiam nas igrejas. Penso que essa dificuldade hodierna se dá por alguns fatores, os quais passo a enumerá-los numa lista não esgotável em si mesma:

    a) além da profissionalização, o perfil de parte das igrejas batistas (para ficar num exemplo) mudou. Sua membresia ascendeu socialmente, muito talvez fruto do próprio evangelho que fez casais priorizarem a formação de seus filhos ao invés de gastar os parcos recursos em outras coisas (bar, mulher, jogo, etc). Esse perfil de membresia acostumou-se a pagar, até mesmo porque pode, pelos serviços. E tal visão foi transferida para a Igreja;

    b) a ausência de abordagem nos púlpitos de ensino sobre dons espirituais e sobre o valor do serviço no Reino, o que normalmente vem acompanhado de falta de sincera busca do Senhor;

    c) a importação de modelos americanos de gestão eclesiástica, país no qual a cultura de se pagar para se ter as coisas é uma realidade. É interessante que líderes importam o modelo até mesmo nas suas expressões vestuais e não querem “pagar a conta” pelo modelo escolhido… ora, o pacote da parafernália eclesiástica, ainda mais de um país que preza pelos modelos organizacionais é completo;

    d) a ausência de inspiração dos líderes, em especial de pastores. Há alguns que servem ao Senhor sem alegria, e sem ela não há contágio voluntário. Você pode ser até sisudo, mas exale prazer, alegria no ministério que exerce;

    e) a inabilidade de líderes que “surram” suas ovelhas quando elas estão em pleno serviço a Deus. Só para ilustrar ouvi certa vez de um pastor que desfez das senhoras da igreja reunidas como MCA. Ora, você pode até não gostar desse tipo de reunião, mas desfazer da mesma? Depois as pessoas não querem mais ajudar e o líder ainda pergunta como conseguir que elas se envolvam…

    f) a importação do modelo IURDiano de sucesso pastoral, baseado nos números, tanto de membros como de receita, e na ostentação dos benefícios pastorais. Ora, quando um membro de igreja percebe que seu pastor não está tendo um sustento digno ou mesmo qualificado no âmbito do merecimento, mas sim que ele está usando o ministério para “se dar bem”, é inevitável que alguns se sintam como que “usados” no voluntariado. Tal sentimento de abuso moral/espiritual tem feito com que grandes valores voltem para dentro da terra, ao invés de serem multiplicados sobre ela (parábola dos talentos);

    g) a falta de exemplo dos líderes. Há líderes que mentem, e ao fazerem isso perdem uma das molas propulsoras da voluntariedade que é o respeito e a fidedignidade daquilo que fazem. Veja só essa expressão que Dostoievski escreveu nos Irmãos Karamazov: “Aquele que mente a si mesmo e escuta sua própria mentira chega ao ponto de não mais distinguir a verdade, nem em si, nem em torno de si; perde, portanto, o respeito de si e dos outros.”

    Seria bom se houvesse uma nova efervescência do mais puro significado de Col.3:23; Hebreus 6:10; I Cor.15:57-58 entre tantos outros textos da Bíblia que apontam para o voluntariado.

    Que Deus nos abençoe!

    Extraído do blog pessoal sergiodusilek.worpress.com

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  • Estive preso

    Estive preso

    Samuel Lourenço Filho, 28 anos, conheceu o evangelho na prisão. Hoje é exemplo vivo de reabilitação em Cristo

    Eu era um jovem criado em um contexto urbano e rural. Gostava da natureza, andar a cavalo, vender leite de carroça… Era até engraçado porque vendia leite de dia e de noite ia estudar no centro da cidade. Era rural e urbano.

    Eu e meu irmão sempre estávamos ligados a coisas que pudessem nos dar retorno financeiro. Ao tempo que isso gerava um retorno, dava a sensação aos outros que éramos homens da casa. Isso nos fez crescer em meio a pessoas mais velhas e hoje vejo um problema o fato de eu ter crescido com pessoas com mais de 20 ou 30 anos. Porque algumas das pessoas adultas com as quais eu convivia bebiam.

    A gente cresceu nesse contexto e, querendo ou não, a gente absorve isso. Posso assumir que isso trouxe consequências para minha vida. O consumo da bebida alcoólica aconteceu de modo recreativo a princípio. Era divertido beber com os amigos e ainda mais divertido beber escondido dos pais. Não era habitual, mas bebia. Para mim, isso não era um problema porque as notas da escola continuavam boas, não havia problema para o bairro, então não tinha problema.

    Quando comecei a estudar no centro do Rio foi um momento de choque cultural, mas havia uma expectativa de estudar ali. Foi o momento em que vivi a adultização precoce. Me tornei adulto muito cedo e agora sou aquele rapaz que sai de casa para estudar e, como as aulas terminavam às 22h, me envolvi com o contexto boêmio. Fui me envolvendo e tentando viver a minha vida. Nessa época, beber se tornou uma prática e minha família ou não se preocupou ou não notou. Porque eu consegui estudar e estava indo bem, portanto, as consequências disso não eram aparentes. Houve uma vez em que uma vizinha chegou para minha mãe e disse: “Samuelzinho anda bebendo demais”. E minha mãe disse: “Qual o problema? Ele anda trazendo problema ao ser bar, bebe e não paga?”. Eu achava que, na força da juventude, eu dominava a bebida e não o contrário. Na verdade, não se percebe que você já está dominado.

    Minha mãe faleceu e o consumo da bebida aumentou muito. Nesse período eu acredito que entrei em um estágio degradante da minha vida porque eu lembro que a primeira coisa que aconteceu foi que minha casa acabou. Tínhamos eletrodomésticos sofisticados para o nosso contexto e para aquele tempo e eu vi essas máquinas virando morada de morcegos e ratos. Minha casa se destruiu. Meu pai sofreu muito e logo contraiu um novo relacionamento. Minha irmã já havia saído de casa, mas eu e meu irmão ficamos. É um momento difícil porque percebi que não tinha mais família. De olhar para o mundo e ver que era apenas eu e a vida. E a vida era séria e tive que enfrentar isso, mas sem ter a estrutura para enfrentar. Faltou o núcleo familiar.
    Minha vida acabou ali. É o momento em que não tinha mais nada. Eu trabalhava para sustentar o vício. Recebia na sexta-feira e no domingo à noite já tinha dívida no bar de novo. Minhas roupas eram as piores… e estou falando de um jovem com apenas 17 anos.

    Nesse tempo, recebo um convite para morar com familiares no Paraguai. Nunca me falaram se foi por bebida, pela morte da minha mãe… foi apenas um convite. Fui para o Paraguai, outra cultura, outro país… tudo novo. Mas a sensação não era a de vida nova. Isso não aconteceu. Comecei a viver no Paraguai e lembro que um dia liguei para casa e fiquei sabendo que minha avó tinha morrido há três dias. Ela disse que não contaram antes por causa do meu aniversário. Naquele momento veio um medo no meu coração de que as coisas aconteciam e eu não sabia.
    Houve um domingo de manhã que acordei e chorei muito. Lembro que eu tinha uma cadela que, ao me ver chorar, foi lamber meu rosto e eu deixei por pensar que não havia mais ninguém que pudesse enxugar minhas lágrimas. Naquele dia arrumei minhas coisas e decidi voltar ao Brasil. Eu queria estar próximo da minha família aqui no Rio.

    Voltei, mas havia a frustração de ter envergonhado minha família. Porque eu fui alguém que deixou o país, mas não conseguiu cumprir a missão. Eu fraquejei e voltei no meio do caminho. A sensação era de que não conseguia fazer um plano que pudesse prosperar.

    Samuel dando testemunho no Acampamento de Promotores Missões Rio
    Samuel dando testemunho no Acampamento de Promotores Missões Rio

    Um crime
    Aqui no Rio prestei vestibular e fui aprovado, mas, quando comecei a estudar, logo abri mão da faculdade. Voltei a trabalhar na feira e a beber. Nessa época estava indo para 20 anos. Estava bem perdido. Foi nessa época em que cometi um homicídio. Trabalhava com um amigo que estava com um problema extraconjugal e essa relação começou a afetar o relacionamento com sua família. A amante dele começou a ameaçá-lo, dizendo que ia destruir a família dele. Eu acabei tomando as dores dele. Pensei comigo que não poderia deixar uma família ser destruída. Na verdade, ele mesmo já estava destruindo a própria vida, mas eu não parei para pensar nisso na época. Eu só entendia que a família dele era muito bonita e não podia ser destruída como a minha tinha sido no passado.

    O crime aconteceu em um contexto absurdo de luz do dia, na presença de pessoas, o que fez com que houvesse uma ação imediata da polícia. Houve tiro, mas não me atingiu e eu, em um momento de lucidez, resolvi me entregar. A história aqui não foi que a vítima se tornou culpada. Não é isso! A história é que agimos de maneira insana mesmo, cometendo esse ato de tirar a vida de alguém. Foi a coisa mais insana da minha vida! A família dele foi destruída, a família da vítima e a minha foram destruídas. Acabou tudo!
    Quando cheguei à prisão pensei que fosse morrer lá dentro, mas nada do que eu temia aconteceu naquele momento. O que aconteceu foi que meus familiares chegavam e diziam: “Você tem noção do que você fez?”. E eu só conseguia responder: “Agora não adianta chorar pelo leite derramado! Acabou. Vou cumprir minha pena”. Momentos depois a ficha caiu e eu senti toda a carga dessa culpa. Vi meu pai chorar muito no momento da minha prisão. Isso se deu em abril de 2007.

    Na prisão começou uma conscientização mínima, um peso de culpa. Quando começa a conversa [com outros presos] na cela, ouvia que tomaria muita cadeia. Ficava o sentimento de que agora estava tudo acabado. Lembro do transporte dos presos e, na época, vinha à mente a forma como as pessoas da Segunda Guerra Mundial eram transportadas. Em lugar que cabiam três pessoas, tinham oito ou nove. Um calor… constantemente desmaiava.

    Houve um momento que me senti tão culpado que um amigo chegou pra mim e disse: “Você acredita que Jesus pode te perdoar?”. “Jesus pode me perdoar? O cara mata e agora Jesus pode me perdoar? Tá bom então”, respondi cético. Ele continuou: “É sério! Existe perdão pra tua vida!”. “Não existe perdão pra minha vida! Quem mata tem que morrer”, eu retruquei. Era um discurso que trazia da minha cultura, do meu contexto. Ele me perguntou se podia orar por mim e eu aceitei, mas avisei que não era para colocar Jesus e a Bíblia nesse crime. Na medida em que ele começava a orar eu chorava muito porque parecia que era um momento de esperança. Depois disso eu, falando comigo mesmo, decidi assumir tudo isso perante o tribunal. Disse à minha família que diria toda a verdade e que assumiria toda a verdade do que fiz. Foi naquele momento que me senti uma pessoa livre. Eu lembro que algumas pessoas tentaram me persuadir para que eu não contasse toda a história, que eu iria passar o resto dos meus dias na cadeia, mas não me importei.

    Conscientização
    O processo do julgamento se arrastou por dois anos e, nesse período, fui me envolvendo com o evangelho dentro da prisão. As pessoas comentavam, dizendo que eu tinha um futuro no Reino de Deus e eu brincava: “Que futuro o quê? Vamos aceitar o perdão, mas não vamos nos esconder atrás da Bíblia”. Nesse tempo fui descobrindo que havia uma chamada mesmo. E descobri que se eu não tivesse a Bíblia como escudo e Cristo como defensor, ninguém o faria. Hoje assumo que dependo da fé em Cristo.

    No início dessa trajetória de dois anos quase não falava. Na primeira vez em que fui convidado a pregar no culto, me pediram dez minutos e eu falei três, tremendo muito e de olhos fechados. Fui remanejado para outra unidade e foi onde cresci mais espiritualmente, assumi novas responsabilidades. Eu me aproximei das pessoas que já eram evangélicas ali e comecei a me integrar, a falar mais e mais, fazer reflexões com apropriações bacanas e todo mundo parava para ouvir. Isso era fruto do Espírito Santo! Nessa fase eu era chamado para ajudar quando havia problemas entre os presos na cela, eu comecei a ganhar credibilidade e vi nisso a mão de Deus. Percebi então que minhas experiências na cadeia me levaram a crer que minha prisão trata algo que está além de um crime. Minha prisão quer tratar comigo dos problemas de minhas escolhas, do meu modo de pensar… foi quando comecei a perceber que as pessoas ali podem se reabilitar.

    No segundo semestre de 2009 fui sentenciado a 14 anos de prisão. [Recentemente até encontrei o juiz que me sentenciou e a gente se abraçou. Foi engraçado eu olhar para ele e contar toda a história, dizendo: “Olha o que eu fiz com a cadeia que você sentenciou?”] . No dia 11 de setembro de 2009, fui transferido da carceragem para o presídio. Com essa sentença, todo mundo chegava e dizia que servir a Deus no presídio era mais difícil. Eu estava com esse desafio, de permanecer cristão mesmo tendo mudado de unidade, de percepção de vida. Digo isso porque às vezes rola um discurso irresponsável como se o preso tivesse que ser absolvido porque aceitou a Cristo. O que aconteceu é que Deus tinha coisas para mim no meu processo de prisão.

    Ressocialização pela educação
    Eu queria permanecer em Cristo. Cheguei a São Cristóvão, onde tive o primeiro contato com a capelania prisional da Convenção Batista Carioca. Eu começo a meu envolver com os trabalhos de culto ali, mas percebo que também tinha que voltar a estudar. O que fiz um ano depois da minha chegada.

    Um dia estou transitando pela unidade e soube que havia passado para a segunda fase da UERJ. Fiquei muito feliz porque de 40 presos que tentaram, eu era um dos três que tinham conseguido passar para o processo de qualificação final. Eu vivi essa alegria e tinha escolhido a Pedagogia. Nesse momento, o pastor Claudio Barreto teve uma participação muito especial na minha vida. Ele me trouxe uma série de provas antigas da UERJ e o conteúdo programático. Com esse material na mão, eu comecei a me nortear melhor.

    Nas celas evangélicas, as atividades eram rigorosas e meus colegas, vendo meu esforço, começaram a me dispensar das atividades para eu poder estudar.

    Em 2012, dia 16 de janeiro, fui convocado para ir ao gabinete do diretor. Eu fui com medo por pensar que tinha feito algo errado. Ele me chamou para me dar os parabéns e jogou uns papéis na mesa, os papeis de aprovação da UFRJ. Lembro que eu entrei nesse clima do preso que entrou para a UFRJ. Depois recebi outros resultados, sendo aprovado também para a UERJ.

    Quatro meses depois, as aulas começaram e eu nada. Havia uma restrição de pena que eu precisava cumprir em regime fechado. Perdi a vaga, mas comecei a estudar de novo e consegui passar novamente para a UERJ. Depois, já em 2013, minha pena havia progredido e mudado para semiaberto. Em abril fiquei sabendo que o juiz havia permitido meus estudos.

    A crise agora era: “Como vou viver lá fora? Aprovado numa faculdade pública e lá está cheio de gente”. Mas prometi para mim mesmo que precisava viver e nessa fase fui fortalecido pelo Pr. Cláudio e outras pessoas. No dia 24 de abril de 2013, depois de seis anos de pena cumprida em regime fechado, as portas se abrem.

    Desafios do lado de fora
    Foi um choque. Um monte de novidades que nunca havia visto na vida, a agitação, telefone touch e com internet. Todo mundo plugado e eu achando que todo mundo sabia da minha vida e que iam me matar… eu cheio de medo. No meu primeiro dia de aula, Pr. Cláudio estava lá na porta da faculdade, me esperando. Quando nos encontramos, ele disse: “Olha aí onde você está? Agora vai viver”. A gente se abraçou e eu chorei muito.

    Éramos eu e outro preso na faculdade. E decidimos encarar de frente, assumindo que éramos presidiários. Isso a princípio foi um choque, uns se aproximando e outros se distanciando. Nesse período conheci um rapaz da Igreja Batista do Rocha e disse a ele: “Eu preciso de um irmão. Compartilho da mesma fé que você e não sei como você vai receber tudo isso, mas sou presidiário e preciso de um irmão com a mesma fé, que entenda que, apesar do passado, eu posso ter uma vida nova”. Ele falou assim: “Vamos juntos!”. Leandro é uma pessoa que me ajudou muito na faculdade e me ajuda até hoje. A gente começou a caminhar juntos e ele começou a mediar meu relacionamento com os outros colegas, falando bem de mim. É claro que ainda passava por resistências e ainda bem que eu passei [e passo] por algumas resistências. É o que eu falo para todo mundo: “Não quero viver numa sociedade onde todo aquele que comete um crime, as pessoas digam: “Ah! Nada a ver, vem pra cá!” Porque aí é a banalização de tudo, da vida, da humanidade. Tem que se chocar, as pessoas têm que se surpreender, mas a gente recomeça a partir daí.

    Paradigmas quebrados
    Uma cena muito fantástica marcou a minha vida. Aconteceu com os colegas da UERJ. Quando souberam que estava expirando o prazo concedido pela justiça para que eu pudesse estudar, todos vieram questionar o motivo pelo qual eu não poderia mais estar com eles. Amigas de faculdade começaram a chorar e ficou um momento legal porque o rapaz preso agora faria falta na sala de aula. E aí todos comentavam que a visão de presidiário em suas casas agora era outra.

    Nessa fase, comecei a estudar novamente e descobri a faculdade de Gestão Pública na UFRJ. Dediquei-me e saiu a provação. Fiquei muito feliz e pensei que finalmente meu momento havia chegado. Consultei amigos, professores, o Pr. Cláudio e tomei a decisão de ir para Gestão Pública. Quando fiz a transferência da faculdade, foi um dia terrível porque todos sabiam que era meu último dia de aula. Esse dia me marcou muito porque a professora deu boa noite e todos começaram a se olhar, a se levantar e a chorar comigo. Essa deveria ser uma hora de alívio porque um preso estava deixando aquele ambiente, mas não. Ali já não era uma ameaça de perigo, mas um jovem que transmitia a graça de Deus, que tinha compromisso com o evangelho e que ia fazer falta.

    Agora teria que entrar em outro processo na justiça para estudar novamente. Nessa época, comecei a dialogar com os alunos da UFRJ e a assumir minha condição de preso. É uma luta política para mostrar que o preso está dentro da sociedade, que o preso compõe a sociedade. E a sociedade precisa entender que ignorá-lo é potencializar a violência. Eu comecei a discutir isso nas universidades, que a sociedade precisa saber que está convivendo com essas pessoas.

    Finalmente as aulas na UFRJ começaram, mas eu não conseguia estudar. Fiz algumas disciplinas pela internet e ainda não havia conseguido liberação. Isso me desanimou, mas conversando com Maíra, ganhei ânimo para continuar com o processo de liberação até que finalmente consegui.

    Certa vez um amigo me disse que não acreditava em nada dessas coisas de Deus, etc. Mas perguntou o que era isso na minha vida. Foi a oportunidade que encontrei para falar de Deus, que era um preso miserável, que estudei, que alcancei, tudo como reflexo de Deus na nossa vida. Hoje participo de congressos, escrevo artigos e participo de grupos de pesquisa como voluntário e os congressos dos quais participo, só consigo porque recebo a ajuda de pessoas, professores meus inclusive. Há uma professora que sempre me ajuda, me dá até alimento.

    Hoje trabalho, fazendo limpeza, mas também estou na universidade. De uma coisa eu sei: eu não posso parar porque é Cristo que me fortalece, que me ajuda. Acreditar no outro é difícil, mas é tempo de voltar a creditar no ser-humano porque é a imagem de Deus. A vida é uma construção coletiva porque em todo tempo a mão do Senhor me susteve, mas não vi a mão sobrenatural dEle, mas as mãos de pessoas que me ampararam, se estendendo para ajudar. O que fica é a gratidão a esse Deus.

    Sempre vou me lembrar da atitude de Paulo, falando sobre Filemon: “Recebe esse rapaz de volta, mas não como escravo, e sim como irmão porque ele é muito útil pra mim”. Tem valores e potenciais úteis para o Reino. Em alguns momentos, vejo o próprio Deus dialogando com sua igreja sobre essa questão: “Recebe o Samuel, mas não como preso, homicida, alcoólatra, fracassado. Recebe ele como irmão precioso”. Não sou exceção, há pessoas como eu por aí, que já viveram isso e que estão em busca de oportunidades.

  • O segundo violino

    O segundo violino

    Pr. Eraldo Coelho Bernardo

    Não sou músico, mas sempre gostei de música, e percebo que esse gosto está presente na esposa e filhos. A esposa canta no coral, tem voz afinada e bom ouvido.  A filha primogênita  tem CD gravado , o filho toca  bem violão e guitarra e é lider do Grupo de Louvor da igreja  e a caçula também tem voz afinada e a usa para louvar ao Senhor.Há algum tempo viajava  com o músico e cantor Marquinhos Gomes, de carro, com destino a São Paulo. Seus CDs e DVDs eram, na época, distribuídos por nós ao mercado, em nível  nacional.Ao longo da viagem conversamos sobre muitas coisas agradáveis e instrutivas,  uma dessas  foi sobre  “tocar o segundo violino”,  o que nem todos os músicos querem .  Ele, empolgadamente explicou-me  como isso funciona.O primeiro violino da orquestra, sob a execução do competente violinista, vai embevecendo, encantando  a plateia, enquanto o segundo violino só entra em cena  de quando em quando, conforme  a composição musical. O violinista do segundo violino tem que esperar paciente e atentamente o seu tempo  chegar, para, então, deslizar o arco em uma ,duas ou mais cordas. Feito isto, esperar, continuar atento, de olho na partitura , o novo momento, lá na frente, em que voltará a tocar por um instante.

    Quero me valer desses informes  das apresentações musicais com violinos para aplicar à liderança, à administração.

    Há muita gente que não sabe tocar o segundo violino, isto é, atuar de vez  em quando, quando é necessário, quando é solicitado e ficar feliz por cumprir determinada  função.

    Quando chega o final de ano em nossas igrejas há a eleição da nova diretoria estatutária, de novos líderes de ministérios , departamentos e comissões. Esses ministérios têm seus coordenadores, vices–coordenadores, membros. As comissões têm seus relatores e respectivos membros. Quantos problemas ocorrem durante os mandatos, quando um  coordenador, vice, ou um membro de ministério ou de comissão não sabe “tocar o segundo violino”!

    Tem-se observado que os pastores bem sucedidos em seus ministérios souberam tocar o “segundo violino” quando seminaristas. Souberam estar atentos àqueles  seus líderes que  tinham condições de tocar toda a partitura.

    Depreendemos da Palavra de Deus em Isaías 14.12-15(IBB) que a queda de Lúcifer (Portador de Luz), tipificado pelo rei da Babilônia, foi porque quis ir além dos limites.  Diz o texto : “Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste lançado por terra tu que prostravas as nações! E tu dizias no teu coração: eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono; e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte; subirei acima das alturas das nuvens, e serei  semelhante ao Altíssimo. Contudo levado serás ao Seol, ao mais profundo do abismo.”

    Um portador de luz que, não sabe se restringir ao papel que lhe foi confiado , pode se tornar em portador de trevas.

    Porque quis usurpar a posição do Altíssimo foi desqualificado, amaldiçoado e  precipitado à atmosfera da terra com os anjos que caíram com ele.(Gn.3.1/Lc.10.18). Disse Jesus que o  inferno  foi preparado para o Diabo e seus anjos (Mt.25.41). Nesse lugar serão presos eternamente.

    Tive dois pastores nos nove primeiros anos de vida cristã. O primeiro, que me batizou, me apoiou e me estimulou a me desenvolver no seio da Igreja, seu nome, Anthidio Dias da Silveira, chamado à presença do Senhor com mais de 90 anos de idade. Após consagrado ao Ministério, convidou-me algumas vezes a pregar na Igreja que pastoreou por mais de 50 anos, onde nasci espiritualmente. O segundo Pastor, Joaze Gonzaga de Paula,  foi assessor da Junta de Missões Estrangeiras, atual, Junta de Missões Mundiais, e, tempo depois, Secretário Executivo da Convenção Batista Carioca. Eu era seu Diretor de Evangelismo na PIB de Higienópolis, Rio.Atualmente, aposentado, mora em Vargem Grande, Rio. A esses dois pastores que me pastorearam  sempre fui leal, sabendo, pela misericórdia de Deus, o meu lugar, isto é, o de “tocar o segundo violino”. Por mais de 40 anos trabalhei em empresas  nas áreas administrativa  e  comercial. A gente tem que saber até onde  pode ir, sem criar atrito, sem atropelar ninguém. Sem perder o emprego abruptamente.

    Temos que estar atentos quanto à Síndrome de Lúcifer. Peçamos a Deus que nos ajude a atuar, dentro de nosso quadrado, até que Ele nos promova ao quadrado mais alto.

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  • Uma chamada que só tem resposta pela fé

    Uma chamada que só tem resposta pela fé

    Pr. Paulo José de Landes

    É aparentemente fácil entrar para o ministério pastoral e ser pastor. Creio, porém, que aquele que se diz chamado para tal ofício de Deus deve ser cauteloso e convicto, pois neste ministério existem flores com espinhos. A exemplo de Jesus na cruz, devemos dizer em sentido atual: “Pai, perdoa-os, porque não sabem o que fazem”.

    Não é o homem, o pastor, a igreja, nem as instituições teológicas que chamam a pessoa para este ofício, o ministério pastoral, e sim Deus. A causa, o ofício, a obra é de Deus. Cabe a Ele chamar, vocacionar, designar o que fazer e sustenar o obreiro. Quem entra sem ser chamado, ou for empurrado, ficará frustrado, no tempo e no espaço, sem saber o que fazer. No ministério pastoral, o obreiro precisa saber o que fazer. Não se concebe alguém ser chamado, sem que Deus o tenha orientado.

    “E disse o Senhor Deus a Abraão: Sai-te da tua terra […] e vai para a terra que eu te mostrarei” (Gn 12.1). “E disse Deus a Moisés: Vem, agora, pois eu te enviarei a faraó e tira o meu povo do Egito” (Ex 3.10). “E disse a Jonas: Levanta-te e vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela” (Jn 1.2). “E disse o Senhor a Samuel: Levanta-te e unge-o, porque este mesmo é” (1 Sm 16.12). “Jesus chamou a Pedro, a André […] Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens” (Mt 4.19). “E disse o Senhor a Ananias: Vai porque este é para mim um vaso escolhido” (At 9.15). “E disse o Espírito Santo à igreja de Antioquia: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado” (At 13.2).

    Eis aqui uma riqueza bíblica de quem foi chamado e designado para o que precisava ser feito. Muitos outros foram escolhidos e chamados, mas ocuparia um grande espaço nesta escruta.
    Pastores, obreiros que Deus chamou e colocou na sua seara – A igreja deve cuidar e zelar por estes homens e eles, prudentemente, devem cuidar do rebanho de Jesus.

    Certo homem, membro de uma igreja, nela compareceu num culto, vestido de roupa de dormir (de pijama). Causou um espanto geral. O pastor que já havia iniciado o culto não se importou com aquele homem, uma vez que entrou e sentou, quieto, e o culto transcorreu normalmente. No final do culto, o pastor e dois diáconos chamaram aquele membro para uma conversa. O pastor aconselhou-o a não frequentar a igreja com aquela roupa e lhe ofereceu outra roupa, se é que estava precisando de uma roupa adequada para andar na rua e ir à igreja. O homem se sentiu ofendido e passou a ofender o pastor e os diáconos.

    Diante da atitude do ofensor, ele foi submetido à disciplina cirúrgica da igreja. Houve votos contra a sua exclusão. Assim, “a bola do homem do pijama encheu”. A igreja, porém, manteve-se firme em sua decisão.

    Infelizmente, o homem de Deus se sujeita a uma queda nesta hora, por causa das “raposas e raposinhas aninhadas” (são os espinhos – Ct 2.15). Deus cuida daqueles que chama e coloca em sua obra. Dizem que “Deus tarda mas não falha”. Eu digo que Deus faz tudo no tempo próprio. O tamanho e o peso do seu amor é igual ao tamanho de sua justiça.

    Aquele homem trabalhava, tinha família e uma vida normal. Era de boa aparência, mas tinha um desequilíbrio mental. Tempos depois ele foi demitido do seu trabalho. Recebeu o justo valor de sua demissão. Naquele mesmo dia, encontrou e entregou todo dinheiro de sua indenização a um agiota, em troca de um embrulho de jornais velhos. Restou-lhe apenas uma grande frustração pelos danos sofridos, do seu lado uma esposa decepcionada, por causa dos filhos que o casal tinha. O tempo passou e um novo emprego não apareceu. A família começou a padecer necessidade. O amor, a bondade e avisão beneficente da igreja, rompendo o orgulho pecaminoso daquele marido e pai, supriu com bolsas de alimentos aquela casa, até que a esposa resolver deixar o marido, indo morar com seus pais. Isto porque já não havia mais gás para fazer comida e a Light cortara a energia elétrica da casa, por falta de pagamento. A casa estava no escuro, o aluguel estava atrasado.

    Aquele homem passou a perambular pelas ruas, sujo, barbudo, cabeludo e maltrapilho (um mendigo), catando restos nas latas de lixo, para se alimentar. Estava vivendo na completa miséria. Até que, num dia de sorte, encontrou uma fortuna: uns níqueis, em eufórico esbravejo de uma mente doente. O primeiro pensamento foi guardar aquele tesouro, mas há muitos dias não tomava um café quentinho. O desejo e a necessidade de tomar o café foram maiores. Então, conferiu que a fortuna dava apenas para um copo de café e um pão com manteiga. Lá ele foi fazer a cobiçada refeição, já sentindo o gosto da mesma. Ele havia levado uma lata de lixo para recolher o café e saboreá-lo mais adiante, para não ser incomodado. Foi atendio, pagou o devido preço e saiu do boteco.

    Histérico, olhava e delirava com o que tinha diante de si. Estando nas nuvens, não percebeu outro mendigo se aproximando, a fim de lhe tomar a refeição. Era semelhante a um cão querendo tomar o osso de um viralata. A tempo, ele segurou a comida em suas mãos, travando-se uma luta pelo alimento (briga de cachorro grande). O café, então, entornou e o pão, por estar seguro na mão que socava o inimigo, no esforço de não deixar escapar, o mesmo virou um palito. Dias depois, por causa do golpe que levou na cabeça, o homem do pijama morreu, mas não lembrou de sua exclusão da igreja.

    Amado colega pastor, eu creio na justiça de Deus na vida de seus obreiros, em duas direções: 1) no nosso visual, fortalecendo nossa fé no que ele nos confiou, naturalmente se vivermos dentro da sua vontade. 2) naquele grande dia, diante do Cordeiro, quando todos daremos provas dos nossos feitos neste mundo.

    Só devemos, humildemente, cativar um coração de amor. “E todas as demais coisas nos serão acrescentadas.” Homens de pijamas já foram previstos por Jesus, que fariam parte do rebanho e da lavoura de Deus”, onde precisa trabalhar o homem de Deus, exercendo sua fé. Deus cuida deste seu servo.

    “Deus cuidará de ti, em cada dia proverá” (hino 344 CC). Cuida de você porque o chamou e o colocou em sua obra.

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  • Sobre a redução da maioridade penal

    Pr. Renato Fonseca

    Um dos temas que têm tido mais espaço, embora seja antigo, mas recentemente bastante exposto nos meios de comunicação, é aquele que fala acerca da PEC 171/1993, que visa alterar o artigo 228 da Constituição Federal para reduzir a maioridade penal de dezoito para dezesseis anos.

    O assunto envolve os aspectos jurídicos, políticos e sociais que merecem uma abordagem séria e comprometida com os valores humanos e coerentes com o discurso e fé cristãos. Não há dúvida de que a sociedade deseja que os atos praticados por adolescentes infratores sejam punidos (na verdade, já podem ser punidos e muitos o são) e, neste contexto, políticos de várias origens e partidos aproveitam o “momento” para apresentarem-se como “defensores” das vítimas.

    A constituição de um país visa o equilíbrio das relações entre as pessoas e a proteção da sociedade ante qualquer déspota, podendo ser este ditador, talvez até o próprio Estado, objetivando segurança jurídica e visando, em nosso caso, permitir que a democracia seja fortalecida e que não sirva de pretexto para atingir as minorias (minoria é conceito de força política e não de quantitativo). Assim, o artigo 228 da Constituição Federal de 1988, para parte considerável da doutrina jurídica, é um artigo que não pode ser alterado nem por emenda constitucional.
    Explico. A chamada ADIN 939-7/DF, já consagrou o entendimento do STF de que os direitos individuais protegidos pelo artigo 5º da Constituição Federal são uma lista exemplificativa, assim, sabe-se que podem, e de fato existem, outros direitos fundamentais protegidas com o poder da imutabilidade fora daquele artigo. Neste sentido, o artigo 228 da CF/88 é um exemplo de cláusula pétrea (imodificável), fora do rol do artigo 5º da Constituição Federal e protegida pelo artigo 60 da referida Constituição (a qual pode-se dizer que confere em relação às cláusulas que lidam com direitos individuais, que estas não podem ser alteradas para a sua supressão ou abolição em uma diminuição de direitos individuais, sob pena de ferir-se a própria Constituição), o que faz que tal artigo, seja protegido pelo manto constitucional que veda emendas abolicionistas e reducionistas.

    Repito. A Constituição Federal, no tocante às suas cláusulas de pedra que versam sobre garantias de liberdade religiosa, liberdade de expressão, direito à vida, de propriedade, de imunidade tributária para templos religiosos, dentre outras garantias e direitos, também protege os direitos individuais que todos os adolescentes em nossa pátria têm de apenas serem julgados e tratados perante uma legislação diferenciada que não pode ser suprimida, sob risco, inclusive, de perda simbólica de força nos demais direitos humanos tão preciosos e já mencionados neste parágrafo. Um passo terrível em direção a uma situação constrangedora dos pontos de vista institucional e humano.

    Mas pode alguém perguntar: Quanto aos direitos da vitima? A sociedade não pode reclamar por justiça? Temos então questões de importante destaque para o presente tema. Não temos como esgotar esta matéria em poucas linhas. Quem já foi vitima de um ato de violência em sua vida jamais pode ser tratado com indiferença. O problema é que ao longo dos séculos avançamos para sairmos de uma sociedade da “vingança pelas próprias mãos” para um sistema que visa tratar com isonomia os diferentes. Como cristãos, nossa justiça precisa ser superior e, urgentemente, precisamos saber o que é justiça.

    Assim, pensemos no seguinte: perguntando a uma pessoa traída nos negócios o que faria com a pessoa que a traiu, deixando-a arruinada financeiramente, será que não teríamos como resposta o seu desejo de exterminar aquela pessoa má, como também a família dela, sua esposa, seus filhos e até seus animais? A raiva, a amargura e os demais sentimentos tiram por completo sua condição de analisar e resolver o problema. A justiça tem que ser restaurativa. Uma descoberta: Nem a vítima e nem o réu podem decidir o caminho da melhor medida, da medida mais proporcional.

    Reduzir a maioridade penal é dar uma resposta inadequada aos problemas que enfrentamos (todas as pesquisas sobre violência apontam que os adolescentes não são responsáveis nem por um por cento dos crimes violentos), e pode, esconder, o real abandono social, e de que precisamos como igreja também intervir como agentes de transformação da realidade que nos cerca.

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  • Líderes, devolvam minha igreja

    Líderes, devolvam minha igreja

    Por Ariovaldo Ramos

    “E perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos. Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo a necessidade de cada um. Perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que iam sendo salvos” (Atos 2:42-47).

    Líderes, devolvam a minha igreja.

    Eu confesso que acho esta frase um pouco pesada. Mas admito que ela faz sentido em se tratando da Igreja Evangélica no Brasil. Partindo, então, deste princípio, em que os líderes estariam usurpando a igreja de Jesus?

    1 – Na ênfase da pregação

    Em toda a história da Igreja Evangélica no Brasil, nunca se vendeu tantos livros e se fez tantas palestras e conferências sobre como fazer uma igreja crescer. Esse processo evidencia que algumas lideranças estão trocando a ênfase dada por Jesus no amadurecimento da igreja pela lógica do crescimento. É preciso entender que o crescimento da igreja é problema do Espírito Santo. O texto bíblico acima mostra que os apóstolos ensinavam e os discípulos perseveravam nas doutrinas, aprendendo que a obra de Deus é o próprio homem, aprendendo que estão sendo transformados segundo a imagem de Jesus Cristo.

    Deus quer que tenhamos o caráter de Jesus. Ser cristão é sair do estado de rebelião para o estado de adoração, e adorar é reconhecer que a vontade de Deus é o que existe de correto no universo. Cultuar a Deus é fazer tudo que Jesus faria se estivesse em nosso lugar. Na igreja de Jerusalém os membros estavam crescendo em ser como Jesus, e crescer é viver em comunidade.

    Os líderes precisam compreender que pastorear não é trabalhar até que se tenha uma congregação imensa, mas investir no ser humano de tal modo que ele aprenda a ser como Jesus e a amar cada vez mais os outros irmãos. Quando a ovelha está com um problema, ensina-se a ele a lidar com aquela situação da forma como Jesus lidaria. Se ela desenvolve antipatia por um semelhante, mostra-se a ela que é preciso olhar para aquela pessoa como Jesus olharia.

    Mas este movimento que faz as lideranças buscarem desesperadamente pelo crescimento numérico está levando a igreja a ficar cada vez mais egoísta. As músicas demonstram isso. Onde está o “nós”? As canções só se referem à primeira pessoa, como se não fosse importante que a obra de Deus alcançasse a comunidade, mas apenas o indivíduo. Isso está fazendo o homem acreditar que tudo é para ele.

    Olhando para a história bíblica, veremos que Moisés abriu o mar, quando estava libertando escravos; Jesus dominou o vento e a tempestade quando estava indo libertar o gadareno; o mesmo Cristo multiplicou os pães e os peixes para alimentar uma multidão. Mas, hoje, qual é a motivação para se buscar milagres?

    Os apóstolos levavam os discípulos a orar, a ler a Bíblia, a crescer espiritualmente em prol da comunidade. Na congregação desenvolvia-se o sentimento de união, de solidariedade. Os líderes atuais, entretanto, precisam tomar estes exemplos, pois usurpamos a igreja e transformamos Deus em um criado.

    2 – Na mensagem

    Ao iniciar o seu ministério, Jesus dizia que o reino de Deus estava chegando. As pessoas deviam se arrepender de suas práticas e jeito de ser errados. Elas deviam reconhecer que carregavam dentro de si o mal. E, hoje, a mensagem continua sendo a mesma, as pessoas continuam precisando admitir sua condição decaída de pecado, continuam precisando reconhecer que são criaturas fora do padrão de Deus.

    Mas não se fala mais que o indivíduo está em rebelião contra Deus. Temos transferido a culpa para o diabo. No entanto, precisamos entender que são os homens que abriram a porta do coração para ele entrar. E, ao invés de chamar a atenção do homem para esta situação, os profetas estão trocando a mensagem do arrependimento pela mensagem da bênção. “Venha buscar a sua bênção”, é o que se anuncia.

    É por isso que vemos tanta gente convertida, comprometendo-se em mudar mas sem condição de assumir um novo caráter. Elas passam a freqüentar igrejas, mas não conseguem deixar de mentir, adulterar, drogar-se, cobiçar. O interior delas não está sendo trabalhado, a mensagem do arrependimento e da mudança de direção não está sendo pregada, as pessoas não estão indo às igrejas para se tornarem semelhantes a Jesus. Usar o nome de Deus com interesses próprios, para ganhar dinheiro e status, é blasfêmia, porque é blasfêmia confundir o que santo com o que é humano. E a igreja não está se importando, porque perdeu o temor de Deus.

    A igreja não se incomoda mais em se relacionar com Deus só para receber coisas. Outro dia, soube de um rapaz que afirmou ficar sem dar glória a Deus até que o Senhor lhe respondesse positivamente ao pedido que fez. O povo está perdendo o temor de Deus, e quando se perde o temor de Deus, ganha-se medo do diabo, tornando-se alguém supersticioso. Usurpamos quando não ensinamos que o homem deve temer a Deus. A mensagem não pode mais ser “Venha buscar a sua bênção”. A mensagem tem que ser “Arrependei-vos”.

    Conclusão

    A Bíblia ensina que pastorear é ser exemplo. E ser exemplo é dizer ao rebanho o que Paulo disse: “Sede meus imitadores como eu sou de Cristo” (I Co 11:1). Primeiro, é necessário ser exemplo de arrependimento, mostrar que está em constante quebrantamento diante do Pai celeste e que só está de pé porque Ele sustém. O líder também tem de ser exemplo do que é ser ovelha de Jesus. Afinal de contas, se não formos como Jesus, seremos como quem?

    Fonte: Instituto Jetro

     

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  • Quanto um pastor pode contar à sua esposa?

    Quanto um pastor pode contar à sua esposa?

    Por Brian e Cara Croft 

    Pastores sabem de informações privilegiadas não simplesmente por causa de suas posições, mas por causa de sua influência. A confiança foi estabelecida. A ajuda foi previamente oferecida e aceita. As ovelhas encontram no pastor um lugar seguro para compartilhar profundas informações pessoais. Porém esse relacionamento se torna complicado quando pastores recebem informação pessoal em segredo, mas precisam buscar ajuda adicional para saber como oferecer cuidado e conselho sábios.
    A esposa do pastor complica ainda mais a confidencialidade. Afinal, ela é a auxiliadora e o suporte do pastor. Ela cuida dele diariamente. Quando ele chega em casa para o jantar, ela vê os fardos pesando sobre ele. Ela suporta o peso de sua mente distraída. Ela lida com suas respostas curtas. E ela naturalmente quer saber: “O que há de errado?”
    Então, quanto um pastor compartilha com sua esposa? Um pastor deveria esconder algumas coisas de sua esposa? Deixe-me mostrar uma perspectiva equilibrada de minha esposa — a esposa de um pastor.

    A Esposa do Pastor: Sua Perspectiva
    Nós não precisamos saber tudo do ministério de nossos maridos. Não é da nossa conta conhecer toda a sujeira em cada membro da igreja, nem é nosso trabalho estarmos envolvidas nessas situações de aconselhamento. Contudo, às vezes, nossos maridos precisam compartilhar o que está acontecendo ou buscar nosso conselho em como aconselhar um determinado membro. Nossas experiências podem nos tornar unicamente adequadas para ajudar outro membro da igreja. Mas precisamos responder com muito temor e tremor, pois com a informação vem a tentação de compartilhá-la.

    Nem toda mulher é tentada à fofoca, mas vamos ser sinceras, garotas — o aviso de Tito 2 para as mulheres mais velhas não serem fofoqueiras está lá por uma razão. Mesmo se você for jovem, cuidado para não se transformar naquela fofoqueira mais velha.

    Então, senhoras, não exijam informações de nossos maridos que eles não sejam livres para dar ou não vejam o benefício de compartilhar. Meu marido é cauteloso ao compartilhar informações comigo, particularmente, sobre outros homens da igreja. Por exemplo, saber a respeito de todos os homens em nossa igreja que lutam contra a pornografia não é necessário nem útil; pode, na verdade, ser prejudicial. Às vezes, compartilhar informações comigo pode até ser considerado uma violação de confidencialidade, que pode ter consequências legais.
    Quando recebemos informações, nossos maridos devem ser capazes de confiar que nós não viraremos e contaremos às nossas melhores amigas. E compartilhar as notícias como pedido de oração ainda conta como fofoca. Se não somos confiáveis com informações confidenciais, então não é necessário que as recebamos.

    Dito isto, informações confidenciais compartilhadas conosco precisam ser deixadas para o discernimento de nossos maridos. Meu marido me envolveu em diversas situações de aconselhamento com mulheres em nossa igreja, tanto como uma proteção para ele e também porque em algumas situações eu posso me identificar melhor. Ele não se encontra sozinho com mulheres. Eu confio que meu marido não está se colocando em situações comprometedoras e ele se apressa em me envolver se parece que pode haver uma questão de propriedade. Mas ele também sabe que pode confiar em mim nessas situações. Eu não compartilho qualquer informação sem a permissão daquela pessoa, e eu normalmente nem sequer peço para compartilhar a informação a menos que ela sugira tal. Nós podemos ser muito prejudiciais ao ministério de nossos maridos se somos conhecidas como fofoqueiras em nossa igreja.

    Esposa, Não Pastora
    Pastores, precisamos guiar nossas esposas bem para capturar o equilíbrio. Vá longe demais para um lado e estaremos escondendo nossos corações de nossas esposas e arrancando-as de nosso círculo interior. Vá longe demais para o outro lado e ela pode se sentir presa em situações onde ela não tem voz ou recursos. Lembre-se, ela é sua esposa, não sua co-pastora. Inclua-a para seu benefício e o benefício de outros, mas ela não é chamada nem obrigada a carregar os mesmos fardos.

    Dicas para um pastor lidar com questões confidenciais com sua esposa:
    1. Obtenha permissão logo do início em questões confidenciais para falar com outros pastores, sua esposa, ou outra mulher cristã madura se estiver lidando com questões femininas sensíveis onde a ajuda e a perspectiva de outra mulher seja benéfico.
    2. Inclua sua esposa quando isso ajudaria a ela, à situação e a sua habilidade de cuidar de você como sua auxiliadora.
    3. Certifique-se de que a permissão foi concedida por aquele que compartilhou a informação confidencial.
    4. Lembre-se, ela não é sua copastora. Esteja atento para protegê-la, não descarregar a pressão sobre ela!

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  • Socorro, quero um culto velho – A força da ignorância

    Socorro, quero um culto velho – A força da ignorância

    Reparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para o Encontro de Músicos, na PIB de Manaus.

    Vivemos mesmo numa época de ignorância, de obscuridade intelectual e de irracionalismo. Infelizmente, a ignorância tem se tornando joia cultivada neste país, e os mais pensantes são cada vez mais postos de lado. Quando um político de expressão nacional diz que livro é como academia de ginástica: a gente olha e foge, é porque a coisa ficou feia mesmo. O pior é que a ignorância é cultivada com arrogância.

    Parece que quanto mais ignorante, mais digno de crédito. E a espiritualidade evangélica tem se distanciado do pensar, que tem sido cada vez mais visto como ato carnal, quando não diabólico. A ignorância está em alta. Está difícil ser evangélico, também, hoje, a quem é pensante.

    Ouvi no noticiário televisivo: um rapaz de vinte e poucos anos, gaúcho, estudante de Teologia na Bolívia, desapareceu nos Andes, quando fora escalar uma montanha de 6.300 metros. O rapaz não tem experiência alguma de alpinista, e ainda assim foi sozinho porque, segundo a mãe, queria ter uma experiência com o Espírito Santo, queria encontrar o Espírito Santo. Como achou que ele é boliviano e mora nos Andes foi fazer a escalada.

    Com todo respeito: o que leva a uma pessoa a sair do Rio Grande do Sul onde há bons seminários, passando pelo Paraná, onde também os há, e ir estudar Teologia na Bolívia? Respeitosamente: desde quando a Bolívia tem expressão em ensino teológico? Este jovem não tinha um pastor que o orientasse? E o que leva alguém, sem experiência alguma, a escalar sozinho uma montanha de 6.300 metros para encontrar o Espírito Santo? De onde lhe veio a ideia de que numa montanha encontraria o Espírito?

    E como convertido e aparentemente vocacionado, ainda não encontrara o Espírito? O que ensinaram a este jovem na igreja e depois no seminário? Sei que a família está sofrendo e que é hora de consolar, mas não posso deixar de dizer: quanta gente tonta, sem noção das coisas, e usando a espiritualidade como pretexto para a falta de juízo! Mas isto é reflexo do cristianismo que pregamos e cantamos hoje em dia. Cantamos autênticos absurdos teológicos e que se chocam contra a Bíblia, e ficamos por isto mesmo. As pessoas não pensam no que cantam, mas se apenas o ritmo é bom, agitado e as faz sentirem-se bem.

    Temos um cristianismo cada vez mais sem Cristo, e cada vez mais com o Espírito Santo, sendo que por Espírito Santo as pessoas entendem uma experiência extra-sensorial. Porque uma experiência com o Espírito aproxima mais de Cristo, pois esta é sua missão. O evangelho está se tornando um ajuntamento de sentimentos, sensações, experiências místicas. Culpo um púlpito que não é exegético e corinhos ingênuos e até tolos. Os muitos corinhos que enxameiam nossa liturgia nos fazem cantar tantas inconveniências que fico abismado que pessoas razoavelmente lúcidas em sua vida secular cantem aquelas letras. Boa parte delas é confusa, sendo difícil ligar uma linha à outra. Pessoas que são professores cantam tantos erros de português, em que “tua” e “sua”, que são pessoas diferentes, se misturam e por vezes nem se sabe quando se fala de Deus ou de alguma outra pessoa.

    Raramente se fala de Jesus, e quando se fala dá para notar que Jesus é cada vez mais um conceito para dentro qual as pessoas projetam seus sonhos de consumo ou de classe média, que o Redentor e Salvador. A linguagem é horrorosa: mergulhar nos teus rios, beber nos teus rios, voar nas asas do Espírito, subir o monte de Sião, estar apaixonado por Jesus, subir acima dos querubins, uma série de expressões que não fazem sentido algum. Mas os compositores estão acima da crítica, mesmo quando fazem coisas ridículas, como andar de quatro em público. E quem canta os tais corinhos se sente bem.

    E também não aceita correção. Quem tenta corrigi-los em suas heresias e tolices é vaidoso, carnal, fossilizado, etc. O que vale não é se o que se canta é certo, mas se faz bem. As pessoas querem se sentir bem e ter alguma experiência. O conteúdo do que se canta é irrelevante. Sendo honesto: não agüento mais cantar corinhos! Chamem-me de vaidoso ou pernóstico, que não fará diferença, mas a maior parte dos corinhos, mesmo que na nova semântica se chamem pomposamente de louvor, é uma ofensa a quem sabe ler e interpretar um texto e tem uma noção mínima de conteúdo da Bíblia.

    “Eu tenho a força”, bradava He-Man. Uma força mística, não divina, mas uma energia cósmica. Parece-me que é essa força espiritual que as pessoas buscam. Eles não querem aprofundamento no evangelho nem estudar a Bíblia. Eles querem sensações e experimentar uma força. O evangelho está se diluindo no esoterismo que grassa no mundo atual.
    Esta é uma palavra especial aos pastores e ministros de música, que julgo eu, são as pessoas mais responsáveis pelo que acontece e que podem mudar a situação. Quero alinhavar algumas sugestões e lhes peço, respeitosamente, que pensem nelas.

    1. FUJAM DO COPISMO
    Chacrinha dizia que “na televisão nada se cria, tudo se copia”. No cenário evangélico também. Há uma usina produtora de corinhos, de forma comercial, que massifica nossas igrejas. Nossos jovens cantam as mesmas coisas vazias em todos os lugares. Em várias igrejas se vê a mesma deselegância de adolescentes robustas, saltitando, num monte de véus, no que pretende ser uma coreografia, mas que mostra gestos descoordenados e deselegantes. Chega a ser triste de ver as pessoas saltitando sem habilidade e com uns gestos que nada têm a ver com o ritmo da música. E a gente fica sem saber o que fazer: se olha as jovens pulando, se pensa no que está cantando, se nota as figuras do multimídia, ou os erros de português das letras, ou ainda o embevecimento do chamado “grupo de louvor”, que volta atrás, repete uma estrofe (quando há estrofe), tremelica a voz, faz ar de quem está sentindo dor. Mas é o padrão na maior parte das igrejas. Parece um shiboleth. Quem não faz assim corre risco de ser execrado. Porque os detentores da verdade litúrgica inovadora são fundamentalistas: fora do modelo deles não há louvor nem espiritualidade. Mas eu pergunto: é preciso fazer tudo igual?

    Convencionou-se que sim, porque ser antiquado é uma ofensa inominável. E para alguns, fora do padrão corinhos e danças tudo é velharia e não há espiritualidade.

    Se você é líder e não concorda, diga que não concorda. Não ceda por medo. Há pastores que têm medo de perder o pastorado e cedem a direção do culto aos jovens. Eles cantam, cantam, e depois se sentam e se desligam do resto da atividade, quando não saem do templo. Há um descompasso entre o que se cantou e o que se prega. Porque se canta um evangelho muito diluído. Há pastores que têm medo de perder o rebanho, massificado por este padrão, e o usam. Tenho ido a igrejas em que pastores ficam alheios aos corinhos (recuso-me a chamá-los de “louvor”), mas dizem-me candidamente: “Eu não gosto, mas o pessoal gosta”. Ele deixa de ser o orientador do povo e passa a ser um garçom que serve o que o povo gosta. Ministro de música também age assim. E também está errado. Se estudou música e passou por um seminário deve ter uma proposta de liturgia menos medíocre e que atenda a todas as faixas etárias da igreja. É sua responsabilidade. Nossos cultos estão sendo empobrecidos pelos corinhos. A música é de baixa qualidade e as letras são aguadas. Os corinhos são cada vez mais efêmeros. Ministro de música, não copie a pobreza musical e intelectual dos corinhos. Pensar não é pecado. E ser inteligente também não é. Se os “levitas” podem discordar dos que chamam depreciativamente de “conservadores”, por que nós, conservadores, não podemos discordar dos “mediocrizadores” da música evangélica?

    2. O QUE A BÍBLIA DIZ?
    Tudo na igreja deve ser submetido ao crivo da Bíblia, inclusive o que se canta. Os compositores não estão escrevendo uma nova revelação e estão sujeitos ao crivo da Bíblia. Devem ser humildes e não pensarem de si como oráculos de Iahweh. Quem queira subir o monte santo de Sião deve ler Hebreus 12.22-29 e ver que ele é um símbolo do evangelho, da igreja de Deus, e que cada crente já está nele. O monte Sião não tem nada para nós. Quem queira subir acima dos querubins deve ler Isaías 14 e verificar que alguém quis fazer isto no passado e foi expulso do céu.
    Quem cante “Quero ver a tua face, quero te tocar”, deve se lembrar que Deus disse a Moisés: “Não me poderás ver a face, porquanto homem nenhum verá a minha face, e viverá” (Êx 33.20).
    As primeiras declarações de fé da igreja foram expressas em cânticos.

    Muitas afirmações litúrgicas do Novo Testamento foram expressões teológicas que firmaram os cristãos. Lutero firmou a Reforma com suas pregações, seus escritos, mas muito mais com seus cânticos. São cânticos que ficam na mente e muita gente está subindo o monte porque canta isto. A igreja precisa cantar sua fé e sua fé está na Bíblia. Toda letra de cântico deve ser submetida ao crivo bíblico. O certo não é o que a pessoa sente nem se o que ela canta lhe faz bem. O certo é o que está de acordo com a Bíblia. O conteúdo do evangelho foi muito definido: Cristo crucificado. Mas pouco se cantam Cristo e a sua cruz. Precisamos cantar o ensino da Bíblia. “Doce canto vem no ar com a primavera, Flores lindas vão chegar com a primavera, Lírios, dálias e alecrins, Violetas e jasmins, O sol vai brilhar, passarinhos vão cantar, Com a primavera”. O que isto tem a ver com Cristo, com a salvação, com a segurança dos salvos?

    Temos abandonado a Bíblia como fonte de doutrina, trocando-a por revelações e sonhos de gurus. Temo-la abandonado como inspiradora de modelo gerencial para a igreja, assumindo padrões de administração humana. Muita pregação, mesmo com ela sendo lido, é apenas emissão de conceitos culturais, e sendo ela mero pretexto para o discurso. E temo-la deixado de lado como balizadora do que cantamos. A função do cântico não é distrair as pessoas nem fazê-las sentir-se bem no culto, mas ensinar as grandes verdades de Deus. O culto deve ser doutrinador, sim. Preguei num congresso de jovens em Manaus, e deselegantemente, o dirigente tomou a palavra após minha fala e disse: “Não me interesso por doutrina, e sim por Jesus”. Pedi o microfone de volta e fiz uma pergunta: “Sem doutrina, que Jesus você tem?”.

    Com nossos cânticos atuais, não temos Jesus. Em muitos deles temos um espírito de grupo, uma cultura grupal ou um Espírito que mais se parece com a Força de He-Man que com o Espírito Santo. É preciso subordinar tudo ao crivo da Bíblia. O evangelho está se tornando cada vez menos bíblico e mais sentimental. Porque está faltando Bíblia.

    3. NÃO DESPREZE SUA HERANÇA TEOLÓGICA E LITÚRGICA
    O terceiro aspecto que abordo é este: não despreze sua herança teológica e litúrgica. Há uma tradição que engessa e que fossiliza. Mas há uma tradição que enriquece e que dá balizamento. O evangelho não começou agora. A igreja não surgiu há alguns poucos anos. Os momentos de louvor e adoração não foram criados agora. Muitos deles, no passado, deixaram marcas profundas de avivamentos que impactaram a sociedade.

    Até agora caí de tacape e borduna nos corinhos, sem abrir espaço para reconhecer que alguns sejam bons. Foi de propósito. Creio que consegui um pouco de atenção. Creio que há cânticos bons e que trazem conceitos espirituais seguros. São coerentes, biblicamente falando. E respeitam a herança teológica do protestantismo. Porque este critério também tem
    valor: os cânticos estão reafirmando nossa fé ou modificando a nossa fé?

    Infelizmente, a maioria me deixa desconfortado: não os canto porque não expressam minha fé, a fé em que fui criado, a “bendita fé de nossos pais”, como diz um hino.
    Nós temos um passado e não podemos fugir dele. A ignorância do passado leva a cometer os mesmos erros cometidos. Houve uma longa luta para firmar o cânon do Novo Testamento, e precisamos lembrar que é ele que interpreta o Antigo. Muita gente tem cantado o Antigo Testamento, mas nós somos cristãos.

    Nós cantamos a fé em Cristo. Se o Antigo Testamento é pregado, deve ser interpretado pelo Novo. Se o Antigo é cantado, deve ser interpretado pelo Novo. Estão querendo rejudaizar o evangelho, questão que a igreja já resolvera em Atos 15 e contra a qual Paulo escreveu a sua mais dura carta, a epístola aos gálatas. Somos filhos do Novo Testamento, e não do Antigo. Somos filhos dos evangelhos e das epístolas, e não de Salmos, embora Jesus os usasse. Mas seu próprio jeito de usar os salmos nos orienta: ele os reinterpretou em sua pessoa. Cantemos Jesus, cantemos a fé cristã e não meras sensações, cantemos a cruz, o túmulo vazio, o perdão dos pecados. Cantemos a Igreja, e não Israel. Somos cristãos e não judeus. Cantemos que “a cruz ainda firme está e para sempre ficará”. Somos salvos pela graça por meio da fé em Cristo. Não somos salvos pelo Espírito Santo nem por uma experiência litúrgica. O Espírito é uma pessoa e não sensações: “O Espírito Santo se move em você com gemidos inexprimíveis” é algo sem sentido. Ele geme por nós, em oração, com gemidos inexprimíveis (Rm 8.26). Mas não se move dentro de nós, com gemidos. O ponto central do evangelho é Cristo e sua cruz. Este é nosso tesouro teológico, herança à qual devemos nos agarrar.

    Qualquer cântico que deslustre isto, que diminua Jesus, que esmaeça a cruz, é blasfêmia. Não quero cânticos de auto-ajuda. Quero Jesus e sua cruz. Quem tem Jesus não precisa de muletas emocionais. Quero cânticos bíblicos, de acordo com a fé que uma vez foi entregue aos santos (Jd 3).

    CONCLUSÃO
    Sei que foi uma palestra dura. Não vou me desculpar porque o que eu disse é o que eu creio. Sim, estou cansado da ditadura litúrgica que me parece associada a um fundamentalismo: só nós sabemos o que é espiritual e vocês estão fora, são do passado, são frios, são formais. Eu me recuso a cantar bobagens com roupagem espiritual. E desafio vocês a restaurarem a liturgia com conteúdo, com ensino. Desafio-os a não cederem à força da pobreza litúrgica que nos avassala. Há algo mais comovente e com mais conteúdo que “Castelo Forte”, “Aleluia”, “Amazing Grace”? Por que a ditadura dos corinhos? Por que, no natal, sou obrigado a cantar que quero voar nas asas do Espírito?

    Que os compositores de corinhos componham música de boa qualidade com letras de conteúdo, e ajustada às épocas, também. Os corinhos são monocromáticos. Dizem sempre a mesma coisa. Nunca ouvi um exortando à confissão de pecados, falando do natal, da dedicação de crianças, da semana da paixão, de missões, da Bíblia como Palavra de Deus. Tudo é igual: louvar, adorar, contemplar, sentir-se bem. Não permitam a monocromia, que é sinal de pobreza. Escrevi, tempos atrás, um artigo intitulado “Quero uma igreja velha”. Esta palestra é um desabafo e um pedido de ajuda: “Socorro, quero um culto velho”. Com a Bíblia exposta, com solenidade, com cânticos com nexo, com os grandes hinos de nossa fé, com Cristo e sua cruz brilhando. Sim, estou cansado da liturgia atual, que é pobre e alienante.

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